(28/06/2026) Durante toda a semana, os proprietários de bois
de canga os prepararam para a carreata deste domingo. Os carros de bois também
foram deixados limpos e a postos.
Hoje, no alvorecer deste domingo invernal e chuvoso, os carreiros tomaram os animais cangados e os colocaram nos devidos carros de bois. Muitas mulheres auxiliam seus maridos neste trabalho. O chuvisco é intermitente, mas é preciso tomar a estrada.
Vestidos com a camiseta bege da Associação dos Amigos
de Carros de Bois, dirigem-se para a residência de José e Maria Terezinha e lá,
junto à Gruta de Nossa Senhora Aparecida, são acolhidos com um delicioso e
sempre bem-vindo café de casa, bem quentinho.
Há dias que D. Terezinha vinha preparando os
condimentos para preparar uma diversidade de bolos, cavaquinho, geleias, cucas,
bolachas, biscoitos... Além de trabalhar em casa, ainda arranjou jeito de
ajudar a preparar os andores e altares na capela. Perguntei-lhe se estava muito
cansada, já imaginando que a resposta seria óbvia. Mas ela me surpreendeu: “Mas, é claro que não estou cansada, pois
fiz tudo com muito amor. E se for assim, a gente não se cansa. Vale a pena!”.
Após o reforçado café, os carreiros voltaram
aos seus apetrechos e colocaram os carros novamente na estrada. Num dos carros
é levado um pequeno andor com a imagem de São Pedro.
A carreata atraiu muita gente da região. E os
animais foram desfilando diante da capela e das pessoas, sendo acolhidos com
admiração e muitos comentários. E eu, sobre um canteiro gramado, já paramentado
para a Missa, ia abençoando com água benta os animais e seus donos. Ao todo, 75 parelhas!
Notei que alguns carros, além do carreiro ou da
carreira, traziam também outros membros da família... e isso era bonito de ver:
crianças, adolescentes, avós... Tal tradição, que vem sendo continuamente
retomada e incentivada, certamente não vai desaparecer tão cedo. Foi essa a
impressão que tive quando vi jovens, moços e moças, maneando aqueles animais
com destreza e cuidado. Tal prática faz parte de suas vidas.
Essa manifestação popular (que ainda é força de
serviço) carrega uma série de valores inegociáveis: a vida na roça, a ligação
com as águas e com a terra, com as plantas e os animais, o cultivo dos valores
familiares e religiosos... ou seja, a preservação da cultura!
As juntas continuavam passando diante de mim. E
benzi com água benta o Milionário e José Rico, o Moreno e o Sereno, o Caboclo, o Baiano, o Pintado... e até o Governador e o Deputado. São sempre curiosos e divertidos
os nomes dados aos animais.
Passando ao lado da capela, os animais foram levados para o
alto da montanha, lá de onde se pode avistar toda a cidade de Tubarão e a
região, até Laguna.
Dentro da igreja toda enfeitada, os fiéis
celebraram a Santa Eucaristia. O Ministério de Música Kairós, de Guaiúba, Imbituba,
animou a celebração e ajudou a assembleia a celebrar sua fé.
Durante a procissão das oferendas, os carreiros
trouxeram dezenas de instrumentos que fazem parte da vida na roça, inclusive
miniaturas de carros de bois, canga, chapéu, relho, buçal...
Após a celebração, toda a comunidade lotou o
Salão Paroquial para o almoço festivo. Talvez, não fosse errado registrar no
plural ‘almoços festivos’, pois, de fato, a Comissão Organizadora preparou dois
momentos para servir a refeição: um às
11h e outro após a Missa. No fim, tudo correu muito bem.
A comunidade é constituída por pessoas simples
e compreensivas, que sabem que é preciso ter paciência para os serviços
funcionarem bem. A tradicional sobremesa foi distribuída nas mesas: laranja
crava (um tipo de tangerina, também conhecida por bergamota ou mexerica, por
conta do seu forte cheiro cítrico e peculiar).
A diversão continuou pela tarde afora, com o
leilão de animais doados para a Festa. O arremate é uma importante fonte de
renda para a promoção, mas, também, uma grande atração de pessoas. É sempre
muito divertido ver a apresentação das ofertas: de um lado é a graça e a
capacidade do leiloeiro e, de outro, as observações dos possíveis compradores
sobre os animais e os acordos que fazem para arrematar as prendas.
Anoitece em Sombrio. Mas o povo permanece na Festa. Amanhã, muitos retornarão para a Missa de encerramento, celebrando o Dia de São Pedro e São Paulo.
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