(12/06/2026)
Dor que dói na alma.
Tudo ia muito bem ali na Capela do Martírio. Era
uma tarde de domingo. Eu acolhia os devotos e romeiros, contava-lhes a história
de Albertina e os convidava para um momento de oração. Em seguida, ficava à
disposição para benzer objetos, conceder bênçãos individuais ou em pequenos
grupos e para ouvir os relatos a respeito de graças alcançadas ou pretendidas de
Deus por intermédio de Albertina. Tais momentos eram sempre muito edificantes,
tamanha a fé dos devotos da Beata.
Mas, lá pelas tantas, eu percebi que havia algo
estranho no lado de fora da Capela: uma família consolava uma senhora.
Trouxeram-lhe um copo de água fresca da bica, ali ao lado. Aproximei-me. “Padre”, disse-me a mulher, “estou muito triste. Não deveria estar ali;
é muito doloroso. Eu não consigo ver aquela imagem. Não quero mais entrar ali”.
Tentei entender o que estava acontecendo.
Então, uma das filhas da pobre senhora me explicou que a mulher perdera sua
jovem filha degolada durante um assalto e ficou traumatizada. Desde então, toda
notícia ou lembrança de violência deixa-a muito sensibilizada.
De fato, a estátua que é venerada na Gruta do
Martírio, em São Luiz, no alto do município de Imaruí (SC), retrata o cruel
momento em que a adolescente Albertina Berkenbrock foi assassinada, numa
tentativa de estupro. Embora a representação artística seja bem delicada e
rodeada por um jardim de flores artificiais e naturais trazidas pelos devotos,
não deixa de remeter a uma cena dramática e traumática.
Vida pacata de interior.
Era o ano de 1931. No dia 15 de junho, segunda-feira,
por volta das 15h, havia risada e vozerio de crianças no pátio da residência
dos Berkenbrock. Henrique e o seu filho mais velho, Vendelino, que já tinha 15
anos de idade, estavam no pasto, cuidando das lidas do campo. Josephina tinha
voltado da igrejinha de São Luiz, onde era zeladora voluntária, e encaminhava a
ceia da família, na cozinha.
Albertina, já mocinha, acompanhava as
brincadeiras dos seus irmãos menores para que a mamãe ficasse tranquila com seus
afazeres. Ela também cuidava dos dois filhos pequenos do Maneca Palhoça, que
residiam num paiol dos Berkenbrock, em troca de trabalhos na roça e na olaria
da família.
Talvez Albertina tenha ido ajudar sua mãe na
limpeza da capela de São Luiz, como sempre fazia, ainda mais que a Festa do Padroeiro
se aproximava (seria no dia 21!).
Uma Santinha em São Luiz.
De repente, o Vendelino passou apressadamente
pela turma no terreiro e transmitiu um recado à sua mãe. E ela logo dirigiu-se
à porta e falou com o Emílio, seu filho (que na altura tinha 9 anos de idade): “Meu filho, o boi Pintado fugiu novamente.
Vai ver onde ele está e traze-o de volta”. Mas o garoto começou a choramingar,
porque estava entretido com as brincadeiras. Sabendo que a mãe estava grávida
de seis meses e que não deveria ser contrariada, Albertina voluntariou-se: “Mamãe, não se preocupe. Eu vou procurar o
Pintado”.
Este episódio da biografia de Albertina
comprova o que todos os seus contemporâneos contaram sobre ela: que era menina
muito dócil, atenciosa, solidária, disponível para ajudar, obediente, fervorosa...
Gostava de ajudar nas atividades de igreja, acompanhando seus pais, sendo
assídua nas funções religiosas e muito respeitosa das coisas sacras. Seu
catequista Hugo Berndt – um luterano convertido ao catolicismo – a costumava elogiá-la
por conta de seus modos, de seu crescente interesse pelas ‘coisas de Deus’, por
seu esforço em colocar em prática os ensinamentos recebidos, por seu coração
tão puro...
A própria comunidade cunhou na Menina um
codinome muito carinhoso e significativo: “Nossa
Santinha”.
Memórias de um martírio.
Porém, naquela tarde de junho, no afã de
atender sua mamãe, sem dar-se conta, ela seria exposta a uma prova de fogo. Ao
procurar o tal boi, não o encontrando nas imediações da residência, decide
subir o morro, na propriedade da família. Lá no alto, na roça, deparou-se com o
Maneco trabalhando normalmente.
A verdade é que, naquele dia, algo perturbava o
homem; tanto que, bem cedo, ele foi ao bar e disse para os colegas: “Hoje eu mato um”. Ninguém entendeu
aquelas palavras e nem as levou a sério.
Lá na roça, ao perguntar para o empregado de
seu pai se havia visto o boi barroso, chamado Pintado, mentindo, ele aproveitou
a ocasião para encaminhá-la para o bosque. Havia tempo que ele vinha
alimentando devaneios de luxúria a respeito da menina moça.
Escondido, ele a seguiu, esgueirando-se entre
árvores e arbustos até surpreendê-la num lugar ermo e escondido. Ele não
precisou de muitas palavras para dizer o que pretendia dela e ela, acuada, inocente,
de coração e corpo castos, compreendeu logo a intenção nefasta do homem. Percebendo-se
sozinha e antevendo sua sorte, apegou-se à sua fé.
Tentou dissuadi-lo: “Não me toques; é pecado. Não! Deus não quer. Não me maltrates”.
Mas ele, descontrolado, agarrou Albertina. Ela
relutou contra tal atrevimento e perversidade. Diante da negativa e resistência
da moça, ele a ameaçou também com um punhal e acabou por desferir-lhe um golpe
fatal no pescoço. Não a estuprou, mas deixou-a jogada no chão, morta e esvaindo-se
em sangue.
O Amor que nunca morre.
A fama de santidade de Albertina espalhou-se
por toda parte e, cada vez mais, ia aumentando o número de romeiros ao seu
túmulo e ao lugar do seu martírio. Da mesma forma, multiplicavam-se as notícias
de graças e milagres recebidos por sua intercessão.
Em 1955 a Arquidiocese de Florianópolis iniciou
o Processo de Canonização de Albertina, que logo chegou em Roma. Passados
alguns anos, o saudoso Papa Bento XVI reconheceu as Virtudes Heroicas da Serva
de Deus e o seu Martírio, por defesa da fé e de sua dignidade cristã,
declarando-a Bem-Aventurada e Virgem Mártir.
A sua morte não foi em vão. Graças ao seu
testemunho de fé em Deus e amor às pessoas, muita gente tem se aproximado de
Jesus e da Igreja. É como reza o ensinamento do famoso escritor cristão
Tertuliano (197 dC): “O sangue dos
mártires é semente de novos cristãos”.
Mártires e testemunhas da fé.
Realmente, a Igreja do Senhor é edificada sob o
testemunho de tantos homens e mulheres, das mais diversas nacionalidades,
idades e classes sociais; muitos deles chegando ao cume da entrega a Cristo
ofertando suas vidas no martírio. A oferta da própria vida por amor a Cristo “é a comunhão mais verdadeira” que pode
haver com o Senhor, que também fez-se Mártir para nossa Salvação.
Em tempos de perseguição religiosa ou não, mesmo
enfrentando contextos hostis, no encantador jardim de sua grei, a Igreja sempre
‘colheu’ muitos mártires. Albertina
Berkenbrock – que é a ‘florzinha mimosa’ de São Luiz – é um deles.
A história da Igreja é construída sobre tais
testemunhas, a partir do maior de todos, o próprio Jesus. No alto da cruz, com
o derramento de sangue e água de seu coração, Ele fecundou o chão missionário
da sua Igreja.
Passaram-se 95 anos do martírio de Albertina. E
a Igreja continua a colher seu mártires por toda parte, em todos os continentes.
Todavia, há muitos cristãos dispostos a darem a sua vida em defesa da fé em seu
Salvador.
Mas há também que considerarmos aqueles
‘mártires do dia a dia’, como nos recordava o Papa Francisco na sua Exortação ‘Gaudete Et Exsultate’ (Alegrai-vos e
Exultai, sobre a santidade no mundo atual, 2018). Falava da santidade diária de
pais e mães que se desgastam para o bem de suas famílias, dos profissionais da
mais diversas áreas e atuações sociais que perseveram na fé e na proteção da
vida, de crianças, adolescentes e jovens que permanecem seguindo os passos de
Jesus!...
Em setembro de 2025, refletindo sobre a entrega máxima da vida, o Papa Leão XIV afirmou que
“onde o ódio parecia permear todos os aspectos da vida, estes audaciosos servos do Evangelho e mártires da fé demonstraram, de forma evidente, que ‘o amor é mais forte que a morte’”.
E comentou sobre a esperança que move o coração de um mártir.
“É uma esperança cheia de imortalidade, porque o seu martírio continua a difundir o Evangelho num mundo marcado pelo ódio, pela violência e pela guerra; é uma esperança cheia de imortalidade, porque, apesar de terem sido mortos no corpo, ninguém poderá silenciar a sua voz ou apagar o amor que deram; é uma esperança cheia de imortalidade, porque o seu testemunho permanece como profecia da vitória do bem sobre o mal”.
Manter vida a memória.
Sobre Albertina,
foram escritos vários livros. Inclusive, no ano passado, eu e a Sílvia
Berkenbrock lançamos “Albertina, Caminho
Para Deus”, pela Planeta Azul Editora/RJ, disponível apenas pela Amazon.
Canções, CDs, inúmeros souvenirs,
eventos de evangelização como o Acampamento de Jovens ÉFETA e o AMORIZAR (com casais),
e até o longa-metragem ALBERTINA (Boanova Films, 2020) são instrumentos para
divulgar e manter vivo e fecundo o testemunho de Nossa Santinha.
No Santuário
Diocesano da Bem-Aventurada Albertina, neste domingo 14, haverá Festa e Missas
para celebrar o aniversário do Martírio.
Em Tubarão, no
bairro São Martinho, na margem da rodovia SC-370, ao lado da Esquadrimax, na
Gruta dedicada à Beata Albertina, haverá a Santa Missa festiva às 15h. O
proprietário do lugar, o Sr. Vilmar Corrêa de Medeiros, construiu o monumento
em gratidão por graças recebidas de Deus sob intercessão da Beata.
É importante
mantermos viva a memória daquilo que ocorreu em São Luiz, aqui na nossa
Diocese, naquele dia 15 de junho de 1931.
Tem razão o Papa Leão XIV:
“não podemos, não queremos esquecer. Queremos recordar. Fazemo-lo, certos de que, tal como nos primeiros séculos, também no terceiro milênio ‘o sangue dos mártires é semente de novos cristãos’. Queremos preservar a memória... dos testemunhos da fé de todas as tradições cristãs”.
Anima-nos o
ensinamento e a promessa de Jesus: “Se o
grão de trigo caído na terra não morrer, fica só, mas se morrer produz muito
fruto” (Jo 12,24); e “Eis que Eu
estarei convosco todos os dias até o fim dos tempos” (Mt 28,20).
A esperança que supera a dor.
Volto a pensar naquela senhora que precisamos acudir quando de sua visita à Gruta do Martírio, em São Luiz. Não sei se ela retornou para visitar o local. A sua sensibilidade diante da imagem do martírio da Beata revelou aquela profunda dor da perda da sua filha querida. É como uma ferida que vez por outra sangra. Foi assim: num átimo, sua memória afetiva lhe trouxe de volta a lembrança daquela dor do passado, aproximando-a da angústia de D. Josephina e da aflição daquela nossa amada Maria de Nazaré.
No fundo, por tudo o que aqui refletimos, são o Amor e a Fé
que nos ajudam na superação resiliente da perda e na celebração diária da
Esperança.
(Pe. Auricélio Costa)
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MANDE SUA HISTÓRIA PARA NÓS!
(peauricelio@yahoo.com.br)
Trailer
do filme ALBERTINA: https://www.youtube.com/watch?v=3XggsrQMHbk
História
de Albertina – narração: Pe. Auricélio e seus pais Sebastião e Osmarina – https://www.youtube.com/watch?v=D18M67Tpunc
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