(11/06/2026) Amanhã a Igreja celebra a
Solenidade do Sagrado Coração de Jesus. Por isso, como é costume em nossa
Diocese, nos dias que antecedem a efeméride, os padres costumam reunir-se para
celebrarem sua fé e vocação, forjadas no Coração do Bom Pastor.
A Manhã de Espiritualidade, como costumamos
chamar, ocorreu na CEDA (Casa de Encontro D. Anselmo), em Tubarão, e foi
preparada pela Pastoral Presbiteral, com momentos de Liturgia das Horas
(Laudes), reflexão sobre o Coração de Jesus, momento de Adoração Eucarística,
Santa Missa e almoço fraterno. Desta feita, D. Adilson não pôde estar presente,
visto que participa de um encontro eclesial da CNBB em Aparecida.
Pe. Elias Della Giustina, Coordenador da
Pastoral Presbiteral, deu as boas-vindas aos colegas e conduziu as Laudes. Em
sua motivação, enalteceu a importância do encontro.
Nossa santificação.
"O sentido do nosso encontro hoje é rezarmos
pela santificação dos sacerdotes, ou seja, pela nossa própria santificação.
Estamos unidos a todo o povo de Deus que também reza em sintonia conosco. O
Papa Leão XIV, que está agora na Espanha, escreveu uma Carta Apostólica por
ocasião dos 60 anos dos Decretos ‘Optatam
Totius’ e ‘Presbyterorum Ordinis’.
Chama-se 'Uma fidelidade que gera futuro' (08/12/2025).
Nela, ele reflete sobre a identidade, a missão
e o futuro do ministério presbiteral. Fala, também, da formação permanente, da
caridade presbiteral, da sinodalidade e do discernimento quanto ao uso das
mídias. Tal assunto está no centro do texto, convidando os sacerdotes a uma
fidelidade vivida como Dom, Conversão e Serviço ao Evangelho.
O Papa volta a insistir na nossa santificação pessoal.
‘A escassez de vocações sacerdotais exige que todos reflitam sobre a fecundidade das práticas pastorais da Igreja. É verdade que os motivos desta crise podem ser variados e múltiplos, dependendo do contexto sociocultural. Ao mesmo tempo, é necessário que tenhamos a coragem de fazer propostas fortes e libertadoras aos jovens, disponibilizando cada vez mais nas Igrejas Particulares os ambientes e as formas de pastoral juvenil impregnadas do Evangelho, e as vocações ao dom total de si hão de manifestar-se e amadurecer.’"
A reflexão espiritual foi ministrada pelo Pe. Zaqueu Suczeck/ICJ, religioso dehoniano, Vigário Paroquial de Armazém. Seus confrades Pe. Vilmar V. Feuser e Pe. André Borges estavam presentes. Ambos sustentam o carisma do Coração de Jesus, como herança espiritual recebida de seu pai fundador, o Venerável Pe. Léon Dehon.
Em sua partilha, o religioso comenta aspectos
da Encíclica do Papa Francisco “Dilexit
Nos” (Amou-nos), de outubro de 2024, e da recente Carta Apostólica do Papa
Leão XIV.
O dia de Oração.
Quero refletir com vocês sobre o Coração ferido
de Jesus. E eu cito o profeta Jeremias 3,15: ‘e vos darei pastores conforme o meu coração, que vos apascentarão com
conhecimento e prudência’. Esse versículo ganhou grande notoriedade sobretudo
com a instituição do Dia Mundial de Oração pela Santificação dos Sacerdotes em
1995, pelo Papa São João Paulo II.
Desde então, a cada ano, por ocasião da
Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a Igreja é convidada a dirigir as suas
súplicas por nós, padres. E, hoje, mais um ano, nós repetimos esta data. Às
vezes, até de forma automática; noutras, sem aprofundar o mistério do Dom
sacerdotal que recebemos de Jesus no dia da nossa Ordenação.
O Cardeal Beniamino Stella, que foi Prefeito da Congregação para o Clero durante o pontificado do Papa Francisco, declarou que
‘esse dia seja de oração para que o Sagrado Coração de Jesus, fonte de refúgio de toda a existência sacerdotal, acompanhe os passos dos sacerdotes com o poder da Graça divina’.
Mirando o Sagrado Coração.
Provavelmente, em nossas comunidades, nós incentivamos
as pessoas a fazerem preces por nós. O fato é que, às vezes, nós podemos nos
esquecer de rezarmos por nós mesmos.
Em todos os casos, é oportuno olharmos para o
ícone motivador deste dia: o Sagrado Coração de Jesus. A espiritualidade que
nasce da contemplação do lado aberto é um dom precioso para toda a Igreja. Foi
o próprio Senhor que, ao doar-se plenamente na cruz, inaugurou este manancial
de riqueza e de bens espirituais.
A Igreja, que é receptora deste legado, vê-se
impelida a continuar esta contemplação. Por isso, ao longo dos séculos, acolheu
e orientou tantos devotos, místicos, teólogos e Santos que se dedicaram a
escrever e a pensar sobre tão precioso Dom.
Pe. Zaqueu estrutura sua reflexão em torno de
três eixos de espiritualidade: o Coração ferido de Jesus; o coração ferido do
sacerdote e a cura das feridas no coração do ser humano.
(1) O Coração ferido de Jesus.
No capítulo 19 de São João temos detalhes de
toda agonia vivida por Nosso Senhor no seu derradeiro momento. Destaca-se, de
modo especial, o versículo 34 ‘um dos
soldados transpassou com a espada um dos lados do Coração de Jesus e,
imediatamente, saiu sangue e água’.
O gesto despretensioso do soldado muda a perspectiva
com que vemos um coração. Antes, o coração era mais um órgão da anatomia humana;
agora, ele é expressão de entrega total do ser por amor. O modo daquele soldado
transforma o modo que temos de compreender Deus.
A ferida no Coração de Jesus estimula a
sensibilidade humana para realizar a busca da Verdade revelada.
A Encíclica Dilexit Nos, do Papa Francisco, ressalta muito bem esta proposição, pois, disse o Papa,
‘o mesmo Jesus espera hoje que lhe dês a possibilidade de mudar a tua existência, de deter-te e encher-te com a sua força; pois, antes de morrer, Ele disse aos seus discípulos: não vos deixarei órfãos. Eu voltarei a vós. Ele consegue sempre uma maneira de se manifestar na tua vida para que tu O possas encontrar’.
Os místicos do Coração.
Na experiência mística de Santa Margarida Maria
Alacoque, em 1673, deslumbra-se o verdadeiro encontro com o Coração de Cristo
ferido e chagado. Em uma das aparições mais marcantes, Jesus mostrou-lhe o
peito aberto e o Coração chagado, fora do corpo. E Ele disse: ‘eis o Coração que tanto amou os homens, que
não poupou nada até esgotar-se e consumir-se para testemunhar o seu amor’.
Jesus mostrou o seu Coração envolto em chamas,
coroado de espinhos e com uma ferida aberta, representando o seu amor infinito
e a dor causada pela ingratidão humana.
Outra Santa do Coração de Jesus, a Santa
Gertrudes de Helfta (Alemanha, 1302) nos dá explícitas afirmações sobre o lado
ferido do Senhor: a chaga do costado de Cristo era vista em Helfta como uma
porta de entrada para a intimidade, para o interior do Coração de Jesus.
Na Encíclica do Papa Pio XII na Encíclica Haurietes Acuas (1956), afirma que
‘o culto ao Sagrado Coração de Jesus não teve sua origem nas revelações privadas, mas brotou espontaneamente da fé viva, da piedade fervorosa das almas prediletas, para com a pessoa adorável do Redentor e para com aquelas suas gloriosas feridas, testemunhos do seu amor imenso e intimamente comovem os corações’.
Se aquele pobre soldado não tivesse deixado seu
instinto falar mais alto, é bem provável que não teríamos a espiritualidade do
Coração de Jesus.
É verdade que o ser humano parece sentir
atração por tragédias, ferimentos e curiosidade por acidentes. Inclusive, há
pessoas que gostam de registrar tais fatos nas suas redes sociais. Esta
realidade, de certa forma, também transparece na Igreja ao ser celebrado por
São João Eudes (1680) e, mais tarde, tornado Solenidade sob o papado de Pio IX
(1878). As feridas do lado aberto de Cristo nos trazem Salvação.
A inspiração de Vianney.
Podemos pensar também nos ensinamentos de São
João Maria Vianney, padroeiro dos sacerdotes: ‘o sacerdote é o amor do Coração de Jesus’. Isso me leva a
questionar, considerando os meus treze anos de ministério, o que é o amor;
porque, se somos o amor do Coração de Jesus, que amor é esse do qual nós fomos
marcados? Tenho consciência desta grande vocação?
Bem, nas aulas de Lógica eu aprendi que a
proposição final é derivada e sustentada pela premissa. Então, se o Coração de
Jesus é ferido, logo o coração do sacerdote também é ferido. Afinal, se Deus
promete ‘pastores conforme seu coração’,
logo o coração de seus pastores é ferido. Reconhecer esta realidade é um gesto,
antes de tudo, de humildade e sensibilidade para com a nossa realidade humana.
(2) Curadores feridos.
No entanto, aquece-nos o coração a ideia de
sermos ‘seres intocáveis’, uma espécie de semideuses. Certa vez, eu escutei uma
expressão que me marcou: ‘somos curadores
feridos’. Elas ganham hoje um grande sentido para mim. Na ocasião, falou-se
de Asclépio, o deus da cura na mitologia grega, que podia oferecer aos curados
a eternidade. E isso gerou certo ciúme entre os outros deuses. Por fim, ele foi
fulminado por um raio enviado por Zeus. Mas acabou sendo honrado mais tarde e
deu nome a uma constelação de estrelas.
Irmãos, nós somos sacerdotes por obra de Deus.
Ele conhece nossas potencialidades e também nossas fragilidades. Sabe de nossas
capacidades de podermos oferecer a tantos enfermos a graça da cura através da Confissão:
quando atentamente ouvimos uma Confissão e perdoamos sem reservas.
Ele se debruça sobre a nossa insignificância
quando celebramos piedosamente a Eucaristia. Verdadeiramente, somos ‘curadores feridos’. Porque também nós
sabemos das dores e feridas que estão dentro de nós; das vezes que não
encontramos um lugar de partilha e guardamos nossas mazelas no nosso interior; das
vezes que somos caluniados, inclusive por irmãos no sacerdócio; das vezes que,
querendo fazer o bem, acabamos errando e fazemos o inverso do que pretendíamos.
Realmente, somos ‘curadores feridos’.
O Cardeal Stella afirma:
‘faz um grande bem aos sacerdotes sentir que a sua fraqueza humana é considerada por aqueles que nos acompanham com a oração, como reconhecimento pelos seus serviços e como encorajamento para não desistirem diante das provações e dificuldades’.
Por isso, neste dia de Oração pelos Sacerdotes, ‘Deus nos usa para curar, salvar. Mas também
quer que nós sejamos curados e salvos’.
Reabastecer-se de Deus.
No outro dia, eu vivi uma experiência pessoal
que me levou a fazer algumas reflexões. Quando crianças, após o trabalho na
roça, costumávamos descansar junto a uma fonte, no arvoredo, na propriedade de
nossa família, que ficava num lugar chamado Buraco do Boi. Sua água era
maravilhosa! Noutro dia, visitando a família, minha irmã me convidou para irmos
até lá. Ao chegar, tivemos uma grande decepção: a fonte de água em meio a uma plantação
de eucalipto.
Pode acontecer que nós estejamos buscando Deus em ‘fontes secas’, que não têm mais o necessário para vivermos bem o nosso sacerdócio. Em Mateus 11,28-30 lemos:
‘Vinde a mim todos vós que estais cansados sob o peso do vosso fardo. Eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para vossas almas. Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve’.
O nosso ministério sacerdotal será retomado continuamente através do exercício do Acompanhamento Espiritual, de verdadeiras Confissões que levem ao arrependimento, da oração diária com qualidade e a boa fraternidade ministerial.
Na primeira Missa crismal do Papa Francisco, ficou
famosa a expressão ‘cheiro de ovelhas’. Oras, eu venho de Campo Alegre (SC), a ‘Capital Estadual da Ovelha’ e,
portanto, sei que elas fedem. Mais tarde eu compreendi o sentido da expressão
do Papa: tem mais a ver com a realidade do nosso dia a dia do que com aquele
tal perfume. Seremos pastores sim, mas com feridas e com cheiro de ovelhas.
(3) A cura das feridas no coração do ser humano.
Embora nós reconheçamos nossas feridas, temos o papel e a missão de curar as machucaduras na vida dos irmãos. O Papa Leão XIV recorda que
‘no mundo marcado por recentes tensões, mesmo no seio das famílias e das comunidades eclesiais, o sacerdote é chamado a promover a reconciliação e a gerar comunhão.
Ser construtores de unidade e de paz significa ser pastores capazes de discernimento para ajudar a recompor os fragmentos da vida que nos são confiados, para ajudar as pessoas a encontrarem a luz do Evangelho, no meio das tribulações da existência.
Significa ser leitor e sábios da realidade, indo para além das emoções do momento, dos medos e das modas. Significa oferecer propostas pastorais que geram e regeneram a fé, construindo boas relações, laços de solidariedade, comunidades onde brilha o estilo da fraternidade.
Ser construtores de unidade e de paz não significa impor-se, mas servir. Em particular, a fraternidade sacerdotal torna crível a presença do Senhor Jesus ressuscitado entre nós'.
Um curador, mesmo que ferido, deve de antemão ter leveza, tirar o foco de si e colocar o holofote no fiel, sem perder a centralidade de Cristo. Na Dilexit Nos, o Papa Francisco nos diz que
‘o Coração de Cristo nos liberta; ao mesmo tempo que surge um outro abismo, o de comunidades com pastores concentrados apenas em atividades exteriores, em reformas estruturais desprovidas de Evangelho, em organizações sucessivas, em projetos mundanos, em reflexões secularizadas, em várias propostas apresentadas com requisitos que se pretendem impor a todos’.
Por fim, que esse Dia de Oração pela Santificação do Clero seja para nós uma fonte inspiradora a fim de nos aproximarmos do Coração ferido de Jesus, para apresentarmos humildemente ao Senhor as nossas feridas, sem vitimismo, mas buscando Nele o nosso sustento. O Papa Leão tem pedido que a Igreja cuide de sustentar aqueles que a sustentam: é a oração pelos sacerdotes.
Adoração e Missa
O momento de Adoração Eucarística, conduzido
pelo Diácono Jhonata José (que será ordenado presbítero em 13 de agosto),
preparou os participantes para a Celebração da Santa Missa, que foi presidida
pelo Pe. André Borges, Pároco e Reitor do Santuário do Coraão de Jesus, em
Gravatal.
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(peauricelio@yahoo.com.br)
Trailer
do filme ALBERTINA: https://www.youtube.com/watch?v=3XggsrQMHbk
História
de Albertina – narração: Pe. Auricélio e seus pais Sebastião e Osmarina – https://www.youtube.com/watch?v=D18M67Tpunc
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