AOS 104 ANOS, LINDOMAR TOURNIER LANÇA SUA NOVA OBRA ‘HEROTIDES’

(27/05/2026)

Saudação à cidade aniversariante.

Feriado na Cidade Azul. É assim que Tubarão é carinhosamente conhecida, desde que o jornalista e escritor Virgílio dos Reis Várzea cognominou-a, no início do século XX, em visita à cidade, impressionado com a beleza do azul celeste refletido nas águas do seu famoso rio.

Desmembrada de Laguna em 27 de maio de 1870, quando ainda Distrito, a cidade era chamada Poço Grande do Rio Tubarão. História bonita, repleta de conquistas e momentos de superação, desenvolveu-se progressivamente como polo regional e ainda mantem-se numa trajetória de crescimento.

Ainda há muitos aspectos de sua história que precisam ser melhor explorados, conhecidos e valorizados. Não é possível construir um porvir sólido sem fundamentar bem o seu passado e manter vivos os passos dados, de modo que não se repita, por exemplo, equívocos já experimentados.

O evento no Shopping.

A cidade está tranquila. Feriado municipal. Algumas casas comerciais abriram suas portas para atender os clientes e fornecedores de outras cidades.

A tarde está particularmente movimentada no Farol Shopping, especialmente no Espaço Cultural, que será palco de mais um histórico evento: a celebração dos 104 anos de vida de Lindomar Tournier e o lançamento do seu 22º livro ‘Herotídes’.

Familiares, amigos e admiradores se concentraram ali diante da Cafeteria. Sobre uma bela mesa de madeira entalhada artisticamente, reservada para o escritor aniversariante, encontra-se um colorido bolo de aniversário. É pequeno, talvez dois quilos, em forma circular, representando livros em pé, como se estivessem na estante. Acima do doce, em meio a morangos e mirtilos frescos, ve-se os numerais 1.0.4., o que levou alguns a observarem: “alguém aqui já tinha visto três velinhas numa torta de aniversário?’.

Passou um pouquinho do horário do início da Sessão de homenagens, mas houve uma efusão de aplausos quando o seu Lindomar chegou no hall. Em sua cadeira de rodas, acompanhado por sua filha, ele vestia seu belo terno escuro e sorria cumprimentando os presentes. Estava visivelmente emocionado, mas aparentemente tranquilo.

De fato, ainda no ano passado, nesta mesma ocasião de seu aniversário (e da cidade!), diante da Livraria La Fontaine, neste Shopping, ele lançava sua obra ‘Iracema’ e prometia para o ano seguinte um novo romance. Promessa cumprida.

Estando o seu Lindomar sentado à mesa, rodeado por mais de uma centena de pessoas, o também escritor e comunicador Ramires Linhares, membro da Academia Tubarosense de Letras (ACATUL), conduziu o cerimonial. 

Nomeou algumas autoridades presentes: Genésio Antônio Mendes (proprietário do Shopping e Membro Benemérito da Academia), Ályson Oliveira (Presidente da Fundação Municipal de Cultura), Marilene da Rosa Lapolli (Presidente da ACATUL), Eliane Fernandes (representante da Câmara dos Diretores Lojistas de Tubarão), Estener Soratto da Silva Júnior (Prefeito Municipal) e Samira Vargas Porto (Vice-prefeita de Capivari de Baixo).

Da mesma forma, todos os membros da Academia de Letras, vestidos com seus distintos fardões, foram chamados a rodearem o famoso acadêmico Lindomar. Junto dele, sentaram-se outros Membros Eméritos da instituição: Dr. José Warmuth e Dr. Arary Bittencourt.

Então, Ramires iniciou a Sessão.

“Gratidão ao seu Genésio, pela acolhida neste espaço, e aos funcionários, visitadores e clientes do Farol. Saudação aos familiares e amigos do Sr. Lindomar e aos membros da nossa Academia literária. Novamente, reunimo-nos aqui para o lançamento de uma obra do Sr. Lindomar, celebrando o dia do seu aniversário de o da nossa Tubarão também.”

Notas autobiográficas.

Não obstante tudo o que já se publicou a respeito do Seu Lindomar, sobre o seu currículo e de como iniciou a sua trajetória profissional e literária, o chefe de cerimônias apresentou um texto autobiográfico escrito pelo próprio aniversariante.

“Nos idos de 1955, quando eu contava com 28 anos de idade, estava estabelecido numa farmácia no Distrito de Guatá, no pé da Serra do Rio do Rastro, na cidade de Lauro Müller. Financeiramente, a minha situação era boa, pois eu era o único o proprietário da única farmácia da localidade.

Eu não estudei além do quarto ano primário que, hoje, creio chamar-se de Ensino Fundamental; mas idealizava que meus quatro filhos tivessem a oportunidade que eu não tive e pudessem, até, quem sabe, estudar uma faculdade e sair para uma cidade maior!

Fui amadurecendo a ideia e saí a pesquisar por várias cidades; e Tubarão foi a vencedora, mesmo sabendo que eu iria assumir um grande risco, pois teria que enfrentar concorrentes antigos que eram donos da freguesia. Resolvi encarar o desafio, pois eu conhecia a profissão que exercia e na qual havia trabalhado por 18 anos, já que eu estava no ofício desde os 10 anos de idade.

Poucos dias depois, eu fiquei sabendo que a Farmácia Santa Albertina, no centro de Tubarão, próximo ao rio, iria fechar por falta de movimento. Juntei os meus trocados e a comprei. Tão logo comecei a trabalhar, no ponto mais central da Cidade Azul, o meu temor desapareceu, pois o povo de Tubarão e a sociedade em geral, me receberam de braços abertos.

Depois de um ano, a Farmácia Santa Albertina estava totalmente recuperada. Senti que eu havia conquistado este povo querido, mas fiquei com a sensação de que eu teria que fazer alguma coisa pela cidade.

Então procurei todos os farmacêuticos de Tubarão e propus a fundação de uma Associação que englobasse todos os proprietários de farmácias da cidade. Passei trabalho, mas consegui convencer todos a, pelo menos, participarem de um jantar que nos foi oferecido pelo amigo Genésio A. Mendes. Ali nasceu a ASPROFAR (Associação dos Proprietários de Farmácia) e que, mais tarde, viria tornar-se um sindicato.

Na década de 60, que já estava pela metade, fui convidado a fazer parte da Comissão de Amigos para a construção da nova Catedral. Em 1966, fiz parte de um pequeno grupo de empresários de Tubarão que fundou a Câmara de Diretores Lojistas, da qual fui duas vezes o Presidente.

Sempre gostei da escrita e da pintura, mas foi quando eu já estava entre os 70 e 80 anos, que pude me dedicar às artes. Então, pintei inúmeras telas e escrevi 21 livros, além de várias crônicas diárias publicadas no Jornal Diário do Sul. E foram esses escritos que me fizeram fundador da Academia Tubaronense de Letras, onde ocupo a cadeira de número 14. Embora pela idade e pela dificuldade de locomoção, eu já fui reconhecido como Membro Emérito.

Minha idade? A idade de 104 anos... é lógico que eu tenho alguns probleminhas de saúde, mas como não os ter aos 104 anos? Agora, eu jogo contra o tempo, sempre driblando as moléstias; mas ando feliz! Eu sou feliz por estar há 71 anos na cidade de Tubarão, pela qual eu tenho muito amor. Esta é uma cidade abençoada e aqui pretendo ficar perenemente, mesmo depois de ter-me incorporado ao solo.”

O admirável Lindomar.

A Prof.ª Dr.ª Marilene, em nome da ACATUL, enalteceu a obra do nobre acadêmico.

“Venho falar em nome dos demais acadêmicos aqui presentes. E o faço com a emoção de estar na presença do seu Lindomar e poder ver, ao seu lado, nossos confrades escritores nonagenários: o Dr. Arary e o Dr. Warmuth. Para nós, estar aqui, é motivo de grande estímulo e força pelo exemplo destes senhores. Estamos cientes das suas dificuldades de deslocamento a fim de estarem aqui, bem firmes.

Parabéns à nossa Academia, que tem a honra de tê-los como nossos confrades. E nós, um pouco mais novos, também queremos alcançar esta idade assim. E, quem sabe, chegar aos 104 anos como seu Lindomar! Admira-nos constatar que o seu Lindomar chegou a esta idade em plena atividade literária!

Ainda nesta semana, ele nos falou o seguinte: que entre a zelar pela cabeça ou pelas pernas, que se zelem pela cabeça; isto é, que cuidemos de nossa mente, de nossa saúde mental, porque ela é muito importante para nós escrevermos com lucidez, com logicidade e com conteúdo que melhore a nossa humanidade.

A respeito do livro que hoje é lançado aqui, novamente o seu Lindomar faz referência e reverência ao feminino. Está lançando ‘Herotides’, mas já anunciou a chegada aí do seu novo livro intitulado ‘Samira’. E, pelo jeito, outros mais virão por aí.

O seu Lindomar tem um peculiar estilo de escrever. Ele elabora crônicas que são transformadas num romance, em forma de capítulos, de modo que cada capítulo é uma crônica longa. Os seus textos trazem, para nós, grandes exemplos da vida cotidiana. As histórias que ele conta, nos engrandecem muito!

Para nossa Academia, é motivo de honra e felicidade tê-lo conosco. Então, parabéns para nós! Parabéns para a cidade! E parabéns para o senhor, seu Lindomar! Obrigada.”

Testemunho inspirador.

Ao usar a palavra, o Alysson testemunhou sua admiração pela visão de futuro que percebeu no seu Lindomar.

“Noutro dia, a professora Marilene falou que o lema da Academia é ‘nem um dia sem uma linha’. Assim entendemos: que nem um dia passe sem que o escritor escreva algo, ao menos uma linha.

No ano passado, quando tive oportunidade de ir ao apartamento do Sr. Lindomar, acompanhado do Dr. Murilo, ele me levou até a janela e apontou para o morro do Caruru (aqui em Tubarão) e me disse: ‘Traga o prefeito aqui, pois eu quero falar ao Soratinho para que ele construa um teleférico aqui’. Fiquei impressionado.

Minha gente, na altura dos seus 104 anos, o senhor se transforma numa inspiração para nós, e ainda nos ensina a sonhar, a planejar! E é justamente isso que nos mantém vivos e o coração aquecido. Obrigado a todos vocês que nos inspiram com suas palavras, com seus textos, com suas imaginações e invenções. E que Deus os abençoe também.”

Amizade para além desta vida.

A participação do Sr. Genésio nesta cerimônia foi permeada de demonstrações de afeto pelo amigo escritor.

“Tubarão chega aos 156 anos de idade! Parabéns, também, a todos aqueles que vieram de fora para ajudar a construir essa nossa história! Quero agradecer aos membros da Academia Tubaronense de Letras e, dentre eles, parabenizar o escritor Murilo Medeiros que, nesses dias, em São Paulo, recebeu o prêmio como Melhor Livro em seu estilo no concurso nacional, com sua obra ‘Traídos e atraídos’. Tais escritores elevam o nome da nossa cidade e de sua literatura para além da nossa região.

Poucas pessoas aqui conhecem o seu Lindomar tão bem quanto eu, porque, quando eu comecei a vender remédio, ainda de bicicleta, naquela época, o seu Lindomar foi um dos meus primeiros compradores. Bem me lembro que eu encostava a bicicleta no meio-fio, diante da loja dele e entrava lá para negociar. A nossa amizade dura até hoje e, enquanto Deus nos der vida, acredito que a nossa amizade permanecerá!

Vez por outra, ele vem aqui para a gente tomar um café juntos. E ele acaba reconhecendo certas pessoas e sendo reconhecido por elas também. Segundo ele, tais encontros o rejuvenessem e ele fica mais forte.

Essa homenagem aqui é o mínimo que a gente pode fazer por uma pessoa tão especial. De fato, ele é uma pessoa que enobrece a todos nós.

Quando eu leio um livro, como este que está sendo lançado aqui, me passa na cabeça o seguinte pensamento: como pode uma pessoa de 104 anos ter umas ideias, botá-las no papel e mandar tudo para a gráfica e transformar aquilo em livro.

Nós que estamos aqui hoje, nesta homenagem ao seu Lindomar, só temos que agradecer a ele. Afinal, quando é que nós vamos ter outra oportunidade como esta?

Há alguns anos nós perdemos dois amigos: um é o Henry Brasil e o outro, o Padre Raimundo Ghizoni; um morreu no domingo e, o outro, na segunda-feira. Nós participamos dos velórios. Passada a uma semana, o seu Lindomar me ligou com a seguinte observação: ‘oh Genésio, eu estava aqui pensando: os meus amigos já morreram todos’. Então, eu pedi que ele repetisse e ele repetiu que seus amigos todos haviam morrido. E eu logo lhe perguntei: ‘mas, seu Lindomar, e eu?’. Ao que ele me respondeu, prontamente: ‘Ah, não, você não vale! Você é novo!’. Tudo bem seu Lindomar. Eu aceito.

Mas ele me disse, também que, quando completou 100 anos, ele conversou com Jesus Cristo e o Senhor lhe teria dito que ele irá viver até 110 anos. Então, está bom, seu Lindomar, vamos aproveitar bem, pois ainda temos mais seis anos pela frente!

E eu espero que logo, no próximo ano, estejamos unidos novamente com os amigos e familiares e podermos conhecer mais um livro do seu Lindomar e festejarmos a sua vida. E eu quero parabenizar todos que aqui estão hoje. Vocês poderão dizer para seus conhecidos: eu estive lá na festa dos 104 anos do seu Lindomar! Um grande abraço a todos.”

Preocupação com o legado a ser deixado.

Representando o Legislativo tubaronense, o vereador Prof. Maurício parabenizou a atuação da Academia Literária e seu membro mais longevo, o escritor Lindomar, pontuando suas propostas para Tubarão.

“Não há como não destacarmos o dinamismo da ACATUL, principalmente nos últimos tempos. Já foi enfatizada a conquista do Dr. Murilo, com a premiação por conta do seu novo livro.

Também quero apontar a escritora e Prof.ª Jussara Bittencourt de Sá que, na semana passada, recebeu a Medalha de Honra ao Mérito Educacional do Conselho Estadual de Educação. Igualmente, quero considerar que a Prof.ª Marilene está encerrando a sua dinâmica gestão à frente da ACATUL e que a próxima Presidente será a Prof.ª Jussara. Então, parabéns à Academia por toda a prestação de serviço à nossa cidade e região.

Na semana passada, eu tive a oportunidade de visitar e conversar com seu Lindomar. Para mim, foi um grande momento de aprendizado. E ele pontuou várias de suas preocupações. Uma delas é com relação ao resgate da memória de algumas figuras históricas da nossa cidade. E sugeriu que coloquemos, naquele paredão dos Correios, um painel com a imagem de Anita Garibaldi montada no seu cavalo, porque, segundo ele, ‘se a Itália faz um monumento para homenageá-la, por que é que não fazemos, também nós, um aqui?’.

E continuou: ‘Lá em Morrinhos, onde há o monumento em homenagem à Anita, por que não fazemos uma grande estátua também, pois se, lá na Itália, há uma imagem de 4,5 m para Anita? Por que não podemos ter uma também? Por que que a nossa cidade se contenta apenas com um monumento?’, questionava-me o escritor.

E ele ainda me apresentou outra preocupação: ‘É preciso aproveitarmos o potencial turístico do Rio Tubarão, inclusive para o esporte, como a canoagem, por exemplo’.

E o professor concluiu:

“Bem, sabem qual foi a principal lição que eu aprendi dessa nossa conversa? É que, na altura dos seus 104 anos, o seu Lindomar nos ensina que é preciso continuar buscando sempre o bem da cidade e dos que nela habitam. Por fim, recordo que este evento aqui, nesta tarde, é único no mundo inteiro! Pois não há, em nenhuma parte, um escritor com 104 anos de idade em plena atividade literária e lançando novos livros! Parabéns!”

Inspiração.

Estando presente o prefeito Estener Soratto, justamente no dia do aniversário do município, e por ocasião do natalício de um cidadão tão ilustre, era importante que ele se manifestasse. E ele assim falou:

“Nestes dias, eu também estive visitando o seu Lindomar e, com prazer, escutei todas as suas proposições. Posso dizer que algumas coisas já estamos tentando colocar em prática, como o acesso ao Rio Tubarão. Sim, ele é uma inspiração para todos nós; e tais palavras valem também a respeito dos demais escritores tão longevos aqui presentes. E já deixo aqui registrado meuo pedido para que se inclua nos festejos do próximo aniversário da cidade, dentro de um ano, o lançamento de mais um livro do seu Lindomar. Muito obrigado e parabéns!”

Apagando as velinhas.

Então, fez-se o ritual de acendimento das velinhas do bolo de aniversário e todos cantaram “Parabéns a você”. Seu Lindomar acompanhou tudo muito atento e feliz. Depois, quis dirigir-se aos presentes. Foi-le passado o microfone, mas sua voz ainda ressoa muito fraca. Com plena consciência, mas tomado de emoção, ele lembrou momentos de sua trajetória vivida na cidade, especialmente sobre sua história profissional. Com bom humor, recordou alguns fatos e disse que viverá até os 110 anos. Enalteceu Tubarão, afirmando que ‘é uma bela cidade’. Por fim, seu Lindomar agradeceu a presença de todos.

A Sessão de Lançamento encerrou-se assim. E o escritor permaneceu ainda mais uma hora atendendo os amigos e, atenciosamente, autografando seus livros.


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