AS ABÓBORAS DO RIO TUBARÃO E OS ‘PAPA-ABÓBORAS’


(15/04/2026)

Dias de chuvarada.

Chove muito sobre toda a região. Há dias que a chuva não tem dado trégua. As ruas estão enlameadas e os cachorros molhados e mal cheirosos, pois teimam em perambular pelo quintal, mesmo que esteja chovendo. Eu não os julgo, pois parecem tão livres. A gente se protege um pouco com guarda-chuvas e capas improvisadas para levar alimentos às galinhas, aos porcos, à vaca e seu terneiro... O solo ficou bem encharcado e a gente já tem saudade do sol.

Os primos... Bem, o que não falta pra nós é um monte de primos e primas, de todas as idades, que vivem nas outras casas aqui da redondeza. Há ruas aqui na nossa Passagem onde todos somos parentes ou de tradicionais famílias tão próximas que nos tratamos todos por parentes. E a gente, fisicamente, até é bem parecido, com alguns traços fenotípicos marcantes.

Arte de bem conviver.

Nascidos e criados entre o Rio Tubarão e a linha férrea da Estrada de Ferro Donna Thereza Christina, com o passar do tempo, ampliamos nossas andanças e relacionamentos com pessoas de todo lado... até mesmo da outra margem do rio. A gente gosta de gente e de ser gente. E nem precisa ser muito parecido com a gente, pois mesmo quem chega de fora sempre é bem vindo.

Aprendemos com nossos avós a lidarmos com as pessoas. Nosso avô Antônio Pedro era dono de bar; o tio Marfiso, sanfoneiro famoso, promovia festas no pátio de sua residência e animava festinhas e festanças em toda a redondeza e na Rádio Tubá.

Os campinhos de futebol eram lugares de grande congraçamento e alegria. Claro que havia disputas maravilhosas entre os primos de um lado da família e os primos do outro lado, juntamente com os colegas da vizinhança; mas a gente se entendia no final ou, senão, alguns dias depois, no próximo confronto.

O Salão da comunidade.

Inclusive na expressão da fé, a gente se encontrava e partilhava a vida. A capela Santa Terezinha servia também de Salão Comunitário... Acho que o correto seria o seguinte: o Salão (que foi sede do Clube Oito de Dezembro) servia como Capela. Aquele prédio na Lauro Müller me atraía e fascinava: todo de alvenaria, na cor branca, possuía janelões na frente e nas laterais. Achava-o imponente, porque alto e vistoso por fora, amplo por dentro, com forro e assoalho de madeira.

Ali aconteciam os encontros do Clube de Mães, da Legião de Maria, das turminhas de Catequese, do Grupo de Jovens, além de eventos artísticos, reuniões comunitárias, festas... e, claro, os Terços e as Missas. Não lembro de ter acontecido algum velório ali porque, até bem pouco tempo, o comum era velar os falecidos em suas próprias residências.

Lá na frente, dentro do Salão, havia um palco e recordo de algumas apresentações teatrais e musicais que ali aconteceram. Mas, na hora das Missas, nós, crianças ficávamos todas juntas, na frente da assembleia, nos primeiros lugares e, como éramos muitas, tínhamos que nos assentar na beira do palco de madeira (agora transformado em presbitério). E, como todas as crianças do mundo, facilmente nos distraíamos na hora das celebrações e ficávamos a balançar nossas perninhas contra a madeira do palco e acabávamos provocando ruídos bem legais, mas que deixavam as lideranças muito irritadas.

Foi, então, que o Pe. Érico J. Ahler/SCJ, um velho e gentil missionário alemão, que era capelão do Hospital Nossa Senhora da Conceição, onde residia, na Praça da cidade, descobriu uma forma de controlar nosso ímpeto pueril. E, num português sofrível, dizia: “Quem se comportar bem direitinho na Missa vai ganhar um Santinho no final”. Pronto. Resolveu o problema e nós fizemos coleções de Santinhos e aprendemos a importância de participar da Missa com respeito e atenção.

Brincar em dias de chuva.

Quando chovia pouco, mas o suficiente para fazer algumas lagoas na estrada, ninguém reclamava da chuva. A gente só aguardava um pouco até que nossas mães pudessem nos liberar para brincarmos nas águas. Para elas, de certo modo, irmos brincar na rua era um alívio, porque trancar crianças dentro de casa em dias de chuva, ninguém merece. É dor de cabeça na certa e brigas dos pequenos, chamadas de atenção e alguns castigos... criança chorando... outra resmungando...

E ainda tinha as reprimendas ‘do alto’. Quando havia trovoadas, ninguém escapava: “Ó, o Papai do Céu está ralhando”; e para nos fazer pensar um pouco: “Parem de brigar e gritar; o Anjinho fica triste”.

Então, valia mais a pena liberar a garotada, dar algumas recomendações e deixá-las gastarem um pouco de energia acumulada... mesmo que, depois, as mães tivessem que lavar aquela rouparada molhada e enlameada.

Aberta a porta da casa, todo mundo corria para pegar as canoas feitas com latas de óleo de cozinha enquanto não voltasse a chover. Era um tal de canoinha pra cá, outra pra lá... Os maiores pegavam enxadas para fazer represas... Os cachorros nos acompanhavam na brincadeira.

Os senhores mais velhos ficavam ao largo observando e se divertindo com nossas estripulias; certamente, lembrando de quando eram crianças também. A diversão durava até que alguma mãe começasse a chamar os seus filhos e, então, como se tivessem combinado, cada mãe passava a chamar pelos seus. Decisão tomada, não adiantava choramingar: “Ah, mãe! Só mais um pouquinho!” e, tampouco, tentar argumentar: “Mas, mãe, agora é que está bom!”. E a gente, contrariado e ‘bicudo’, invejava aqueles companheiros que permaneciam ainda mais tempo naquela algazarra molhada.

Lá em casa, quando todo mundo já tivesse tomado banho, então o pai nos dava uns goles pequenos de café com cachaça para ‘aquecer o corpo’ e não gripar. “Só um golinho”, recomendava. Não era a melhor coisa do mundo, mas sortia efeito, sem dúvida. Era um santo remédio. E, se alguém começasse a tossir, a mãe logo acrescentava manteiga ao café com aguardente. Daí, realmente, não era nada saboroso.

Nem tudo era brincadeira.

Mas, quando a gente cresceu um pouco e já andava de bicicleta pelo bairro, conhecendo e reconhecendo ruas e ruelas, os laços de amizade foram se ampliando. Em dias seguidos de chuvarada, as enchentes eram uma certeza. Na Vila Presidente Médici (COHAB – COMASA), nas partes mais baixas, várias ruas ficavam debaixo d’água e as casas eram invadidas pelas cheias.  Era muito triste ver aquela cena. O pessoal já era bem pobre e ficava ainda mais desprovido de quase tudo. Muitos dos flagelados eram nossos colegas de escola, tanto na Martinho Ghizo quanto na João XXIII.

Agitação na ponte do Campestre.

Mas, assim que estiasse um pouquinho, a gente saía a pedalar. E nós gostávamos de ir lá para o bairro Campestre. O antigo leito do rio Tubarão serpenteava pela vila. A retificação do Tubarão aconteceu somente após as cheias de 1974. Então, com menos entrada e vazão de água, a mata ciliar começou a invadir o leito e surgiu o apelido Rio Seco.

Sobre o leito do rio havia uma ponte de madeira (que perdurou até 2024). Ela dava acesso à bela Capela de Nossa Senhora Aparecida e a todas as residências, campos e recantos que ficavam daquele lado esquerdo. As águas da enchente tinham grande volume e deslizavam pelo leito com enorme velocidade e furor. Era o Pai feroz (Tuba-Nharõ) revelando o seu fluvial senhorio.

Enquanto a ponte ainda estava descoberta, muita gente acorria ao local para trocar impressões sobre a enchente, sobre a possibilidade do rio transbordar, sobre as famílias cujas casas foram atingidas e para assistir a captura de ‘presentes’ trazidos pelo rio.

Vi o pessoal recolher das águas alguns animais, como bezerros, cachorros, galinhas e porcos. Havia muito entulho que, sempre que possível, era retirado para não comprometer a estabilidade da ponte. Mas recolhia-se, também, muitas abóboras e morangas. Lembro, particularmente, das abóboras e aquilo era uma festa para o público. “Lá vem mais uma! Lá adiante está vindo outra! Lá perto do capim tem outra!”

Jamais esqueci daquelas cenas. Logo entendi que as abóboras haviam nascido nas margens dos rios e riachos que desembocam no Tubarão. E, de fato, as margens do rio eram muito aproveitadas para o plantio de subsistência familiar, pois as terras são férteis e adubadas pelas cheias. Muitas aboboreiras nasceram espontaneamente; o mesmo acontecia com melancias, pepinos, morangas... e muitos outros frutos.

Algumas delas viajavam quilômetros, tragadas pelas águas e iam ficando pelas margens dos rios ou capturadas pelo pessoal esperto que se divertia recolhendo-as sobre pontes, pinguelas ou nas perigosas margens dos rios. Lembro de um rapaz que encheu a carroça dele com esses produtos retirados da água. E todos chegavam ali perto do veículo para observar, comentar e contabilizar o fruto do trabalho dele. Outros amarravam abóboras nas garupas das bicicletas.

Abóboras: dádivas do Tubarão.

Vi crianças serelepes carregando abóboras nas costas na direção de suas casas. Certamente, suas mães saberiam preparar muito bem um cozido de abóbora, um ensopado, um refogado, um doce (até recheio de torta), uma sopa ou caldo, um bolo... Afinal, quem não gosta de abóbora empanada ou caramelizada?

A Pastoral da Criança ensinava as pessoas a fazerem suco de abóbora. Eu experimentei, mas não é, para mim, a melhor forma de aproveitar a fruta. Em Imaruí, por exemplo, o preparo do pescado está sempre relacionado com a abóbora.

Tudo nela pode ser aproveitado: flores, cascas, polpa, sementes e até as folhas (especialmente os brotos – que alguns chamam cambuquiras). Abóboras e morangas possuem considerável durabilidade, depois de colhidas. E isso é uma bela vantagem!

Ao longo da vida, a gente vai se ‘acostumando’ com certos estereótipos a respeito de populações e povos que destacam algumas de suas características ou peculiaridades. Geralmente, há um tom pejorativo e preconceituoso e que, evidentemente, ‘de per si’, não devem ser incentivados. Contudo é importante analisá-los e superá-los, pois não se pode reduzir a alguns traços toda a riqueza cultural de um povo ou lugar. Por exemplo, comenta-se que o italiano é ‘papa-polenta’, o alemão é ‘papa-batata’, o morador da beira-mar é ‘papa-peixe’ e o tubaronense é ‘papa-abóboras’.

Fonte natural de vida.

Que ninguém fique constrangido por saborear abóboras ou morangas, pois, os estudos científicos estão do nosso lado. Tais frutas são dons de Deus altamente nutritivas, ricas em ferro, potássio, cálcio, fibras, fósforo, caroteno, além das vitaminas A, C e complexo B. Elas reforçam o sistema imunológico, controlam a pressão arterial e estimulam a produção de colágeno, suavizam rugas e flacidez, reduzem o colesterol ‘ruim’, protegem a saúde dos olhos, ajudam na digestão e funcionamento dos intestinos, previnem a osteoporose, fortalecem a melanina etc.

Nossa! Realmente, por tudo isso, ninguém deveria aborrecer-se quando for chamado de ‘papa-abóbora’ porque ela só lhe faz bem. Inclusive, há uma próspera cidade em Goiás, Rio Verde, que auto intitula-se Capital das Abóboras e se orgulha de sua admirável produção da fruta.

Há lugares no mundo em que elas são esculpidas e até ganham aparências assustadoras. Eu e meus irmãos, particularmente, preferíamos usar mamões verdes esculpidos, com velas acesas em seu interior, para assustar as primas nas noites de outono.

Em nossos dias, aqui em Tubarão e região, quando já não temos muitos quintais e roçados nas margens dos rios, não há a necessidade de aguardarmos dias de cheias para a captura de abóboras perdidas nos turbilhões de água. Até porque, já não é sem tempo estarmos protegidos, mas sobretudo precavidos, diante da temeridade das enchentes.

Enfim, nos mercados, feirinhas, verdureiras e hortifrútis, facilmente lá estão elas: enormes, lindas, vistosas, poderosas, maravilhosas e baratas, ao alcance de todos. Portanto, um viva às abóboras!

Ademais, em tempos de chuva ou de sol, não se deve esquecer daquele antigo conselho de nossos avós e pais: “coma bastante abóbora para ficar forte e ter pernas grossas”. 



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