A TRAGÉDIA DO CARURU – NAS CHEIAS DE 1974, FAMÍLIA DE TUBARONENSES FOI TRAGADA PELA ÁGUA, BARRO E PEDRAS

(23/03/2026) Passaram-se 52 anos daquela tragédia que se constituiu num marco para a história de Tubarão. Desde então, anualmente, algumas instituições promovem eventos que homenageiam sobreviventes e agentes públicos que trabalharam para dirimir a dor da nossa gente naqueles dias chuvosos e incertos de 1974. Também recorda-se os falecidos que foram tragados para fúria das águas que caíram volumosas sobre a cidade e toda a região, enquanto se buscam alternativas para colocar em práticas os planos de prevenção e contenção das atuais e futuras cheias do Tubarão, num esforço hercúleo e abnegado de pessoas como aquelas do Comitê da Bacia do Rio Tubarão de Complexo Lagunar ou as da Defesa Civil.

A comunidade católica da cidade vivia a Quaresma e preparava-se para a Festa do Senhor dos Passos, que deveria acontecer no domingo, dia 31, e para as solenidades do Tríduo Pascal. A Igreja no Brasil realizava a 10ª Campanha da Fraternidade, promovida pela CNBB, com o tema “Reconstruir a vida” e o lema “Onde está o teu irmão?”. 

Marcas da infância. 

Eu tinha nove anos quando o nosso amado e admirado rio revelou-nos sua face violenta e cruel. Ainda posso sentir o cheiro de casa úmida e fechada há dias por causa das chuvas... a preocupação de nossos pais... nossa angústia pueril por não podermos brincar na rua, na chácara, no campinho de futubol, na casa dos primos... Éramos cinco meninos trancafiados, que já estavam enjoados de assistir desenhos animados na TV.

Lembro que o rádio era o principal meio de comunicação para sabermos das trombas d’água que caíam em Lauro Müller (que eu sabia que era longe e ficava nas montanhas, pois lá moravam nossos tios Conceição & Lece e Erci & Lidinha. Íamos para lá de trem ou no corajoso Renaux do pai).

Como esquecer dos pães de forma que a mãe assou, mesmo sem amassa ter levedado, porque não havia sol? A mãe ficou constrangida de servi-lo para nossa refeição.

Um abrigo na Casa da Senhora da Piedade.

A todo instante o pai saía para ver como estava a situação do rio, visto que nosso terreno faz fundos com o Tubarão. E as notícias não eram boas. Aos poucos as águas começaram a invadir ruas e bairros da cidade e nós, no bairro Passagem, próximos do quartel da 3ª Cia. de Infantaria do Exército, tivemos que buscar o auxílio dos soldados que nos conduziram à Catedral, situada no alto da cidade, onde ficamos abrigados.

Chegamos lá muito assustados com o barulho do vozerio, da chuva, dos trovões, dos helicópteros e carros ao redor, gritos e choros... Conseguimos um lugar na escadaria do altar. Voluntários vinham saber se estávamos bem. O soldado Sena, que era conhecido da família, nos ofereceu um cobertor e bolachas.

Lembro com ternura e compaixão do meu pai que, em meio a tudo aquilo, andava de um lado para o outro em busca de provisões para nós e os que lá estavam, mas, também, para consolar outras pessoas e colocar-se a serviço.

A mãe, coitada, ficava a todo instante contando os meninos com receio de algum se perdesse no meio da gentarada. Os padres Raimundo e Juventino, amigos de meus pais, vez por outra passavam por ali para saber como estávamos. Muitos anos mais tarde, em 1995, eu haveria de subir aqueles mesmos degraus para ser ordenado presbítero, sob a imposição das mãos do querido D. Hilário Moser-SDB e naquele chão sagrado presidir o Santo Sacrifício Eucarístico.

Os cadáveres da enchente.

Em meio a tudo o que passamos naqueles dias de 74, estávamos na Casa de Nossa Senhora da Piedade e a Mãe de Jesus nos mandava ‘anjos’ que cuidavam de nós. Foi um ‘anjo’ sim, aquela pessoa que nos ofereceu um quarto em sua casa, ali ao lado da Escola Hercílio Luz, na frente dos Correios. Ela tinha sido professora de minha mãe e procurava um casal com filhos para abrigar.

Não tenho lembranças de como chegamos lá, mas recordo que a casa já estava cheia de pessoas e nossa mãe nos recomendou que tivéssemos bom comportamento para não incomodar aquela gente que estava sendo tão boa para conosco.

Eu ajudava a cuidar dos meus irmãozinhos. Numa ocasião, fui até a sacada daquele antigo casario e fiquei a observar os carros e transeuntes que por ali transitavam. A Escola tinha se transformado num lugar de coletas e distribuição de víveres, água e roupas para os flagelados. Se não quando, percebo que uma tombeira parou diante da casa e embaixo da sacada. Debruçado no parapeito olhei para dentro da caçamba e o que lá avistei jamais esqueci: eram vários corpos de pessoas mortas... seus pés estavam à vista... Estremeci e cuidei para que os meninos não olhassem para a rua.

Os dias quase normais e o Caruru.

Nos dias que se passaram, muitas coisas aconteceram. Ficamos um bom tempo na casa da vó Antonina, no Humaitá, até nossa casa na Passagem ter condições de nos abrigar novamente. Nesse ínterim, completei os dez anos de idade. E ouvi falar sobre a tragédia ocorrida num lugar chamado Caruru, onde muitas pessoas morreram sufocadas pela queda de barreira durante os temporais.

Eu sempre lembrei dessa história e achei que os mortos de lá estavam sepultados com os demais falecidos que foram colocados numa vala comum, no Cemitério Central da cidade, perto do jazigo de nossa família. Costumava rezar por eles.

Passaram-se vários marços, quis Deus que eu fosse designado Pároco de São Martinho de Tours, em cujo território está a comunidade de Caruru. Neste domingo, 22 de março, os fiéis se reuniram na capela de Nossa Senhora de Fátima para louvar a Deus e rezar pelas vítimas da tragédia ocorrida na vila. Durante a oração, a catequista e professora Maria Aparecida (Cida) leu um texto do Dr. Irmoto Feuerschuette, médico e escritor da ACATUL (Academia Tubaronense de Letras), que na época era o prefeito de Tubarão.

“O Caruru é uma localidade situada no oeste do município de Tubarão. Chega-se lá pela margem esquerda do Rio Tubarão, via estrada que conduz a instância hidromineral do Rio do Pouso ou pela localidade de São Martinho. (...) [Trata-se de] lugar aprazível, de gente pacata, porém, seu relevo, a natureza o fez cercado de morros em toda a sua extensão, do nascer ao pôr do sol. Foi ali que aconteceu a maior tragédia nas cheias de 1974, não só em Tubarão, como também em todo o sul do Estado.

A chuvas do mês anterior e a quantidade de água despejada do céu fizeram com que, na manhã do dia 25 de março, enorme deslizamento de terra, acompanhado de volumosas pedras, provocasse nada mais nada menos que 25 mortes. (...) Eram todos integrantes da mesma família. A natureza e o Criador não pouparão idosos nem crianças. Foram arrastados pela avalanche de terra e pedras por mais de 500 m morro abaixo.

Moradores que, na época, residiam pelas imediações, ainda falam hoje em dia que o barulho ouvido dava a sensação de tratar-se do final dos tempos. (...) À medida que os corpos eram encontrados, eram transportados por aproximadamente 100 m pela estrada geral, em padiola improvisada e, na sombra de um jacarezeiro, localizado à esquerda da estrada que demanda ao centro do Caruru... eram lavados com água recolhida de um córrego próximo... os bombeiros ou marinheiros transportavam os corpos para o cemitério [local], levando nos braços as crianças, e os adultos em padiolas improvisadas” (FEUERSCHUETTE, Irmoto. Tuba-Nharô, o Pai Feroz – O Drama das Inundações no Sul de Santa Catarina. Editora UNISUL. Tubarão, SC. 2018. pp.124-125).

Então, após a leitura, um e outro na assembleia puderam contar a sua história e concluímos tudo com um bonito momento de oração.

Meditando...

Nestes dias em que recordamos as cheias de 74, renovemos nosso compromisso em cuidar da natureza, nossa Casa Comum e dos nossos irmãos e irmãos que coabitam conosco neste planeta.

Lá, celebrava-se o Ano Mundial da População, promovido pela ONU. Hoje, com a Igreja, celebramos o Ano Franciscano em comemoração aos 800 do ‘nascimento pascal’ de Francisco de Assis. Ambas as efemérides nos ajudam a pensarmos na proteção da vida, da vida de todos os povos... sobretudo dos mais fragilizados, vítimas das guerras insanas e das intervenções e sanções autoritárias em territórios soberanos.

Muitos outros sucumbiram nas águas do Tubarão, e isso é lamentável. Nossa vida é um dom imensurável de Deus. Caminhemos em direção da Páscoa da Ressurreição de Cristo, renovando nosso compromisso de solidariedade com os mais frágeis e trabalhando na construção de um mundo melhor para todos.


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