(03/04/2026) A palavra SOLEDADE procede do Latim solitas, que no Espanhol, tornou-se soledad. O vocábulo traz em si vários
significados: solidão
profunda, melancolia, saudade ou isolamento, sentimento de tristeza por estar só; e pode ser usado para
descrever um lugar ermo, deserto ou solitário.
Nesta noite de Sexta-feira Santa, aconteceu a tradicional
Procissão com as imagens do Senhor Morto e da Senhora das Dores pelas ruas do
bairro. Ao final, à multidão dos fiéis reunidos diante da matriz São Martinho
de Tours, em Tubarão, o Pároco, Pe. Auricélio, proferiu o Sermão da
Soledade. Eis o conteúdo
de sua homilia.
A morte é uma realidade
que nos ronda.
Nesta noite
santa, nós nos reunimos diante desta igreja vazia e às escuras, para vivermos
juntos um momento especial: a paixão e morte do Senhor Jesus. A paixão (que
significa sofrimento) e a morte são nossas companheiras de longa data. Tanto
que alguns dizem que ‘viver é o mesmo que sofrer’. A morte é um tema que nos
persegue todos os dias, embora nem gostemos de tratar dele. No entanto, muitas
vezes já recebemos a sua visita em nossa família e na nossa história. Sabemos
muito bem como fica o nosso coração com a perda de um ente querido: doloroso,
dolorido, dorido! Às vezes temos a sensação de que um pedaço de nossa coração
vai junto com aquele que parte.
A Pietá.
Ao contemplarmos
a imagem da Senhora das Dores, com seu Imaculado Coração transpassado, logo
podemos imaginar quais sentimentos dominavam seu coração de Mãe naquele final
de tarde em Jerusalém. Certamente, estava despedaçado, especialmente quando
recebeu o seu Filho amado morto, após tanta tortura e violência. Ela o abraçou
carinhosamente; era o seu Menino, o seu Filho, o seu Jesus, seu ‘Jesusinho’!
Queria dar-lhe vida outra vez, queria que Ele abrisse os olhos e conversasse
com ela como faziam lá em Nazaré. Até hoje, como nesta tarde, esta cena
retratada na Pietá, na famosa escultura de Michelângelo, mexe com nossos
sentimentos.
A Quaresma preparou-nos o caminho para o Tríduo.
Caros irmãos e
irmãs, nesta Quaresma nós fizemos uma caminhada espiritual para nos aproximarmos
de Jesus que sofre no irmão que não tem casa, que não tem terra, que não tem
emprego, que não consegue sustentar sua família, que não tem seus direitos e
sua dignidade humana respeitados.
E neste Tríduo Pascal,
estamos meditando o sofrimento de Jesus que só tem sentido porque é uma entrega
de amor. Nossa caminhada no seguimento de Jesus, Ele que é a luz da vida,
continuou nesta noite de Sexta-feira Santa, quando carregamos a imagem do Seu
corpo morto. Não somos cultuadores da morte, pois o nosso compromisso cristão é
com a vida. Afinal, somos servidores daquele que disse: “Eu sou o caminho, a
verdade, e a vida”
Queremos ‘conformar’ ao Senhor crucificado o nosso coração e a nossa vida. Isto significa que nós queremos aproximarmo-nos do sofrimento de Jesus para encontrarmos ali um sentido para o nosso próprio sofrimento do dia a dia. Com confiança, podemos dizer ao Senhor:
“Quando eu caio, és Tu quem me levantas. Quando eu choro, és Tu quem me consolas. Quando sofro, és Tu quem me curas. Quando te chamo, Tu sempre me respondes. Tu és a luz que me ilumina, o sol que me aquece, o alimento que me nutre, a fonte que me sacia, a doçura que me inebria, o bálsamo que me restaura, a beleza que me encanta”.
O Amor é a resposta à dor.
Sabemos que a
história da humanidade é marcada por muitos sofrimentos. Se Deus é tão bom,
como nós pregamos e cremos, como pode haver tanto sofrimento no mundo? Quem
nunca se fez essa pergunta? Nós buscamos no Evangelho a resposta quando olhamos
para a imagem de Cristo morto e da Nossa Senhora sofrida e chorosa aqui diante
de nós.
Baseados nos Evangelhos, podemos dizer que Jesus, ao longo da sua vida, foi caminhando em direção à cruz e ao martírio. É por isso que nós reconhecemos no Cântico do Servo de Deus, do profeta Isaías, capítulo 55, que Jesus é este “servo, é o homem das dores”: “Ele foi levado como ovelha ao matadouro”, como explica São Lucas, nos Atos dos Apóstolos. “E como um Cordeiro, perante o seu tosquiador, Ele ficava mudo e não abria a boca. Eles o humilharam e lhe negaram a justiça” (Atos 8,32-33).
Irmãos e irmãs, Jesus
é o Servo de Deus, é o inocente que sofre por amor sob a injustiça deste mundo
que vivemos. A imagem do Senhor Morto representa um corpo humano de verdade e
nos leva a acreditar que Jesus sofreu mesmo todas as dores que lhe foram
impostas por seus algozes. Não estamos falando de teatro; Ele não encenou estar
sofrendo! Absolutamente, não! Ele assumiu de fato a nossa condição humana e a
nossa condição corporal, que sofre e geme diante de tanta injustiça e de tanta
dor, “fazendo-se semelhante a nós em
tudo, exceto no pecado”.
Segundo o
teólogo Bruno Forte, enquanto homem, Jesus sofreu a experiência humana da dor
no nível da finitude física, isto é, do seu corpo; da finitude psicológica e do
sofrimento moral e espiritual. Ele sofre fisicamente porque sentiu sede, sentiu
fome, sentiu frio e o calor da sua terra, como todos nós. Quando, no alto da
Cruz, Ele grita: “Pai”, Ele estava
humanamente sofrendo e morrendo.
Os ensinamentos da Cruz de Cristo.
Muitos Santos e
Santas encontraram no sofrimento de Jesus a inspiração para enfrentar todas as
adversidades em suas vidas. É por isso que vemos um crucifixo nas mãos da
imagem de Santa Terezinha do Menino Jesus; também nas mãos de São Luiz Gonzaga e
de Santa Rita de Cássia e de tantos outros Santos, fazendo-nos recordar que a
entrega de Jesus na cruz não foi em vão.
Até hoje, a cruz de Cristo é sinal de Salvação para nós. A meditação da Sua entrega nos convida a fazermos, também, a entrega de nosso coração. E eu lembro aqui daquela bonita e significativa oração que rezamos na Missa, após a comunhão, inspirada na oração do espanhol Santo Inácio de Loyola (1491-1556):
“Alma de Cristo, santifica-me. Corpo de Cristo, salvai-me. Sangue de Cristo, inebriai-me. Água do lado aberto de Cristo, purificai-me. Paixão de Cristo, confortai-me. Ó Bom Jesus, escutai-me. Dentro de vossas chagas, escondei-me. Não permitais que de Vós me separe. Do espírito maligno, defendei-me. Na hora da morte, chamai-me e mandai-me ir para Vós, para que com vossos Santos vos louve por todos os séculos dos séculos. Amém!”
Todo entregue aos desígnios do Pai.
Amados
paroquianos, durante sua vida, Jesus também sofreu psicologicamente. Segundo
São Lucas, Ele “crescia em idade,
sabedoria e graça, diante de Deus e diante dos homens”. Ele era plenamente
Homem e plenamente Deus. Ele era Deus e Homem, Homem e Deus! E sofreu
profundamente, dentro do seu coração, todo gesto e palavra de rejeição, e quando
perdeu seu pai José, quando perdeu o seu amigo Lázaro, quando foi alvo de
zombarias e acusações, mas, no entanto, Jesus nunca deixou-se perturbar, mantendo-se
totalmente entregue ao Pai, através da oração e do diálogo íntimo. Manteve-se
sereno e equilibrado o tempo todo.
É por isso que lemos na Carta aos Hebreus:
“durante sua vida na terra, Cristo fez orações e súplicas a Deus, em voz alta e com lágrimas ao Deus que O podia salvar da morte. E Deus O escutou, porque Ele foi obediente e aprendeu com as coisas que sofreu” (Hb 5,7s).
Solidário e companheiro dos homens.
Jesus conhece
nossas angústias, nossas dores e preocupações, nossas inseguranças e nossas
tristezas mais profundas. Ele é nosso companheiro na dor. Mas, também, “é a causa de Salvação eterna para todos que
lhe obedecem”, como lemos também na Carta aos Hebreus (Hb 5,9).
No alto da Cruz,
Jesus deu um forte e violento grito: “meu
Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” (Mc 15,35). Temos aí um sinal de
Alguém que sofre uma dor profunda, aguda e que parece nunca ter fim. É o grito
d’Aquele que era tão amoroso com as pessoas, tão carinhoso, acolhedor,
compreensivo e solidário. Sabia sentir a dor do outro, interessava-se pela vida
do outro... e que sempre buscava encontrar um caminho de chegar ao coração
humano.
Ele tinha grande sensibilidade para com a dor alheia. Ele é um Deus que compreende, ama, que restaura, dá forças a quem está oprimido pelos padecimentos do dia a dia. É por isso que Ele disse:
“venham a mim vocês todos que estão cansados de carregar o peso do seu fardo e Eu lhes darei descanso; carreguem a minha carga e aprendam de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vocês encontrarão descanso para as suas vidas. Porque meu jugo é suave e meu peso é leve” (Mt 11,28-30).
No alto da Cruz
colocaram uma placa onde se podia ler em vários idiomas “Jesus de Nazaré, rei dos judeus”. Muitos festejaram a sua morte
porque O consideravam um blasfemador, um arruaceiro, um subversivo. Contudo, o
mais importante é o que confessou um dos guardas que estava junto à cruz: “Realmente, Ele era o Filho de Deus”.
Em Jesus, nossa Esperança, esperançar!
Nas nossas lutas
diárias, não desanimemos! Permaneçamos firmes na fé, vivendo o nosso Batismo,
comprometidos com a missão da Igreja e sendo, aqui na nossa Paróquia, sinais do
Amor de Jesus que “é mais forte do que a
morte”.
Irmãos, nesta noite, não estamos celebrando o fim de uma vida, mas a certeza de que a verdadeira Vida ressurgirá do túmulo. É preciso cultivarmos a esperança! Como ensinou uma grande educador brasileiro, Paulo Freyre:
“É preciso esperançar!”. Disse ele: “É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…”
E a nossa Esperança
chama-se Jesus Cristo!”. Para o cristão, a Esperança nunca morre! “Vitória, tu reinarás!”
(Pe. Auricélio)
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Trailer
do filme ALBERTINA: https://www.youtube.com/watch?v=3XggsrQMHbk
Fotos: PASCOM - SM/TB
História
de Albertina – narração: Pe. Auricélio e seus pais Sebastião e Osmarina – https://www.youtube.com/watch?v=D18M67Tpunc
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