(06/01/2025)
É
TEMPO DE REISADO!
Sobem
morro, descem morro. Entram no carro, descem do carro. Colocam-se em pé diante
do portão ou da porta da residência eleita para receber a visita (porque não é
possível visitar todas as pessoas).
Os
foliões do Terno de Reis pouco se importam com os cachorros da vizinhança que
ficam alvoroçados com o movimento de ‘intrusos’ e o barulho noturno de passos
no chão.
Os
cantores aquecem suas cordas vocais discretamente Todos se entreolham alegres e
ansiosos, ávidos por perceber a reação dos moradores da casa. Mas, será que
estão em casa? Será que já foram dormir?
Aguardam
o comando para ouvir os primeiros acordes da canção e, no momento certo, respiram
fundo e soltam a voz.
“Aqui está o Santo Reis, na sua porta chegou,
seguindo a estrela da guia, que no alto do céu brilhou,
trazendo ‘Feliz Natal’!
Jesus Cristo Redentor que abençoe sua família. Ai!”
(Chico Damião/Família Dias, Blumenau).
Então, logo em seguida, as luzes da residência vão se
acendendo, as portas e janelas vão se abrindo... E uma alegria contagiante e
uma emoção compartilhada por amigos vai tomando os corações de todos.
O Terno aguarda um pouco para que a família se
recomponha da surpresa, coloque uma roupa mais adequada (pois, muitas vezes, já
estavam deitados) e ajuste um pouco os cabelos (quando os têm)... e tudo se
transforma numa grande expressão de amizade, de fé, de alegria... Não é
necessário falar nada, apenas cantar e ouvir as canções.
“Vem ver! Vem ver! Levanta dono da casa,
que está chegando os Santos Reis.
Brilhou a Estrela Guia.
Um anjo anunciou lá pras bandas de Belém:
‘Já nasceu o Salvador! Ai, ai!’” (Almir Martins, Imbituba).
Na véspera do Dia dos Santos Reis (que é comemorado no dia 06 de janeiro), no bairro São Martinho, em Tubarão (SC), um grupo de amigos, familiares e cantores do Grupo de Cantos da matriz São Martinho, decidiu reviver a experiência da cantoria de Reis.
Liderado pelo Ênio Correia,
em cujas veias corre a tradição do reisado, duas dezenas de homens e mulheres
prepararam o repertório e definiram quais casas seriam visitadas. Privilegiaram
antigos membros do Grupo que, por um ou outro motivo, não têm conseguido
acompanhar as atividades na igreja. Para vencer as distâncias, foi necessário
fazer o percurso motorizado (não dispomos de camelos na região!).
Muitos dos participantes estavam ‘debutando’ no
reisado, enquanto outros tinham muitas experiências bonitas para contar. Ah,
quantas lembranças foram compartilhadas nos intervalos entre uma e outra
visita.
LEMBRANÇAS DO TERNO NO BAIRRO PASSAGEM
A tradição do Terno de Reis é uma valiosa herança
luso-açoriana que recebemos dos antepassados ‘compatrícios’ que colonizaram,
especificamente, nosso litoral brasileiro. Há manifestações de Terno por todo o
Brasil, cada qual com suas especificidades.
Na Tubarão de 1980, no bairro Passagem, por exemplo, era muito comum, nesta época do ano, reunirmo-nos com amigos e passarmos cantando, quase que de casa em casa, levando a boa nova: que o Menino Deus nascera e que o Ano Novo ‘vai chegar’ ou que ‘já chegou’. Violões, cavaquinho, sanfonas, pandeiro, chocalho, afoxé, tamborete...
Todos podem participar do Terno e é
muito interessante quando os visitados passam a integrar o cortejo e vão
visitar outras famílias também. Varávamos a madrugada, pelas ruas e ruelas de
nosso bairro, ‘assustando’ os cachorros e cantando a preciosa canção de
abertura:
“Ó senhor, dono da casa, dá licença pr’eu entrar!
Ai, dá licença, ó senhor dono da casa, pra eu entrar. Ai!
Acordai quem está dormindo nesses seus lençóis dourados.
Ai, acordai, que estais dormindo, ai nesses seus lençóis dourados. Ai!”
E não poderia faltar a participação dos ‘tripeiros’ (aqueles
que faziam a ‘tripa’): os cantores ou cantoras que concluíam as linhas melódicas
cantando o ‘Ai’ numa oitava acima dos demais (falsete). Eram uma atração a
parte.
O tirador de versos dava o norte das canções. É seu
papel puxar as estrofes, já conhecidas ou inventadas no momento, geralmente
envolvendo a família visitada, para, então, todo o grupo cantar forte o refrão,
caprichando no ‘ai’ ou ‘oi’ final.
O Terno adentrava na residência cantando, sendo que
uma parte dos foliões permanecia no pátio ou na varanda. Depois de alguns
cantos de Reis, fazia-se alguma oração, suplicando pela família e augurando-lhe
bênçãos do Menino Deus e muitas felicidades.
Então, quase sempre os moradores ofereciam alguma
bebida ou doces aos presentes e tudo era degustado com avidez e prazer. Lembro de
consumir bebidas destiladas naquelas ocasiões. Após um cântico religioso
popular (Noite Feliz, Oração da Família...), o Terno deixava a residência
cantando.
“25 de dezembro, quando o galo deu o sinal
Que nasceu o Menino Deus numa noite de Natal, oh, ai!
Os três Reis, quando souberam, viajaram sem parar.
Cada um trouxe um presente pro Menino Deus saudar... ai, ai!
Nesse instante, no ranchinho, passou a Estrela da Guia,
visitou todos os presentes, onde o Menino dormia... ai, ai!”
Já na estrada, o Grupo caminhava fazendo comentários sobre a
visita e preparando-se para a próxima missão. E, assim, varávamos a noite e a
madrugada... por fim, alguns já sem voz (e fartos com os biscoitos e doces),
queriam mais era retornar para suas próprias casas e dormir um pouco.
Em
alguns lugares, nos tempos idos, algumas famílias visitadas costumavam ofertar
ao Terno de Reis uma galinha viva. A ave era amarrada pelos pés e pendurada
numa vara, apelidada de ‘pau de galinha’. Alguém ficava responsável por cevar
(preparar) as penudas e, num dia acertado com todos, promovia-se uma galinhada.
E a cantoria de Reis ia, desta forma, se perpetuando. E todos já começavam a
planejar o Terno do próximo ano.
Meu pai, Sebastião Costa, era um apreciador e fomentador do reisado. Nesta época de Natal, ele sempre saía a convidar cantores e cantoras da comunidade para abrilhantarem as celebrações na então capela Santa Terezinha, na Passagem.
O
tio Marfiso (famoso sanfoneiro) era uma atração rara, mas havia outros
personagens importantes: o Dragão, o Romualdo, o Venício, o Gatinho (Luís
Elias, que era ‘tripeiro’), o Lourinho (e demais filhos do tio Marfiso), a
Dinorá, a minha mãe Osmarina... e nós todos, primos e amigos... E sempre
recebíamos sinceros elogios dos padres que presidiam as Missas: Pe. Juventino,
Pe. Raimundo, Pe. Pedro De Biase...
IMBITUBA CULTIVA O REISADO
É
elogiável (e invejável), igualmente, a resistência do Terno de Reis do Grupo
Folclórico Estrela Guia, do bairro Vila Nova, em Imbituba. Tendo à frente o
açorianista e agente cultural Almir Martins (querido irmão Diácono), seus membros
seguem promovendo não somente o reisado, mas também a Bandeira do Divino e a
cultura luso-açoriana regional.
Graças à união de várias forças daquela cidade, no último dia 02, sexta-feira, aconteceu a 10ª edição do Encontro de Cantorias de Reis, no Salão Comunitário de Vila Nova. Reuniram-se, na ocasião, centenas de populares que apreciam o reisado. Inclusive, tudo foi transmitido ao vivo por uma emissora de rádio local, a Difusora FM, e suas redes sociais.
O evento contou com as apresentações de
três Grupos: Terno
de Reis da Família Machado, de Braço do Norte; Terno de Reis da Vila Santo
Antônio, de Imbituba; e Terno de Reis Santo Antônio do Rio Chapéu, de Rio
Fortuna. Chamou-me a atenção a tradição do reisado presente em duas comunidades
marcadamente germânicas!
Iniciativas
semelhantes acontecem, igualmente, em algumas de nossas comunidades mais
interioranas. Precisam ser conhecidas e incentivadas. Certos grupos conservam
seus estandartes, onde apresentam (pintada, aplicada ou bordada) uma imagem que
lembra os Santos Reis e as fitas coloridas que recordam os presentes ofertados
pelos Magos ao Menino Jesus: ouro, incenso e mirra.
“Jesus nasceu lá em Belém e em nossos corações quer nascer também.
Foi numa estrebaria que aconteceu: o Menino Deus pro mundo nasceu!
Na noite iluminada, por anjos coroada,
pastores e Reis Magos adoram o seu Deus. Laiá-laiá...
Ao povo que esperava a vinda do Menino
brilhou uma grande luz no ventre de Maria.
A todos emociona, a todos compromete.
Através de uma Criança, Deus cumpre o que promete. Laiá-laiá...”
(CD Sempre Te Amarei, Pe. Auricélio)
[Para ouvir: https://www.palcomp3.com.br/padreauricelio/jesus-nasceu/ ]
MISSAS DE REIS NA PRAIA DA JAGUA
Há
grupos que usam camisetas próprias ou uma opa vermelha e dourada, como é o caso
do tradicional Grupo Terno de Reis Estrela Guia, de Jaguaruna que, por dezenas
de anos, anima festas e celebrações na praça e nos balneários daquele
município.
Sob a liderança de Waldir Nunes de Souza e José Faustino (Jota Souza), crooners do Ministério de Música Vozes do Espírito, da matriz da cidade e, sempre que possível, com as sanfonas maravilhosas do Cassimiro e do Maneca (Manoel Anselmo), o Grupo lutou muito para preservar a tradição.
Por quase 15 anos eu os acompanhei presidindo as Missas de Reis na frente da Capelinha da Senhora dos Navegantes, no Balneário Arroio Corrente, reunindo centenas e até cerca de duas mil pessoas na Praça.
A
TRADIÇÃO DO REISADO PERSISTE
Infelizmente,
são raros os grupos que mantêm essa tradição do Terno de Reis. Todavia, há reminiscências
em grupos de música litúrgica que preservam o reisado, dentro das conveniências
celebrativas. Foi muito bonito, por exemplo, o que aconteceu na capela do
Senhor Bom Jesus, na vila homônima, em Tubarão, após a Missa do último dia 03.
O Grupo de Cantos local, liderado pelo Rodrigo Coradini Nunes, ofereceu uma
apresentação especial com reisado à comunidade. Os fiéis amaram e retornaram
para suas casas ainda mais felizes!
Ontem
mesmo, grupos de Terno de Reis saíram pelas casas do Balneário Camacho (Jaguaruna),
no Parobé (Laguna), em Nova Brasília, Vila Nova e outras comunidades de
Imbituba.
Tais
expressões culturais que enaltecem a vida familiar e comunitária, amalgamam
mais profundamente nossos laços culturais, promovendo a amizade entre as
pessoas e a esperança num mundo mais fraterno.
Estou pensando, também, noutras manifestações culturais como a Bandeira do Divino, o Boi de Mamão, as rodas de violeiros, os encontros com a poesia, eventos de divulgação da gastronomia local, os projetos de danças culturais, os encontros de corais etc. Nossa, quanta riqueza possuímos em nossa região!
TUBARÃO, BERÇO DA FAMÍLIA DIAS
Por
fim, presto minha homenagem a um dos Ternos de Reis mais famosos do Brasil,
cujas raízes estão aqui na nossa Cidade Azul. Refiro-me ao Terno de Reis da
Família Dias. Foi em Tubarão, nos morros de Caruru que, em 1919, nasceu
Oliveira Moysés Dias que, desde jovem, apreciava tal manifestação devocional. Casando-se
com Damiana
Corrêa Dias, também do Caruru, o casal continuou participando do Terno, mesmo
quando precisou mudar de cidade. Por fim, em Blumenau, eles reuniam filhos e
amigos para cantarem o reisado.
A tradição
transmitida aos filhos, frutificou e, hoje, netos, bisnetos e outros familiares
já estão no Terno. O Grupo gravou dezenas de CDs e DVDs com composições
próprias e de outros cancioneiros, como o Almir. Em sua carreira, eles têm
cantado com vários artistas de renome nacional, como Sérgio Reis e Jair
Rodrigues; e participado de inúmeros programas de rádio, TV e apresentações
pela internet.
É sempre uma grande atração nas festas de comunidades, tanto em cidades catarinenses, quanto noutros Estados. Como em onze de fevereiro de 2017, quando eles abrilhantaram a Festa de São Brás, na comunidade balneária de Garopaba do Sul, em Jaguaruna. Na ocasião, pude conversar e cantar com o Grupo.
A
MENSAGEM É UMA CRIANÇA
Melchior, Gaspar e Baltazar, os Magos do Oriente, representam todos os que aguardavam esperançosos a realização das profecias. Eles nos ensinam a permanecermos firmes na fé e confiantes nas Promessas de Deus. Com os pés no chão da vida, eles não deixaram de contemplar o Céu. Bem que Jesus ensinou: ‘Buscai as coisas do Alto!’ (Col 3,1); afinal de contas, ‘estais no mundo, mas não sois do mundo’ (cf Jo 15,19).
Os estudiosos ‘astrólogos’ ficaram
felizes quando, ao saírem do Palácio de Herodes (estrela opaca), voltaram a ver
a Estrela Guia que os levou até a Gruta em Belém. Tocados por divina alegria,
abriram os cofres de seus corações, entregando-se ao Senhor Menino que,
reconheceram, era o próprio Deus encarnado.
É
disso que trata a tradição do Terno de Reis, como podemos ver na poesia do
poeta cantador Almir Martins.
E,
com a graça de Deus e de Nossa Senhora, no próximo ano, o Terno de Reis voltará
às igrejas, casas e ruas para anunciar o Natal e o Ano Novo. Motorizados ou à
pé, os membros do Terno voltarão a cantar as mensagem de vida e esperança,
mesmo que os cães se incomodem por um tempo.
“Caminhava, um dia, pela estrada, buscando um refúgio acolhedor,
um carpinteiro e uma mulher grávida, símbolo da Criação e do Amor.
Em um estábulo, embalaram ternamente nos braços o Menino que nascia,
e a noite brilhou intensamente sob a signo de uma Estrela Guia.
E da criança, o Homem consolou o mundo,
e Deus passou da morte para a eternidade,
o Poeta da verdade, do saber profundo.
E se a vida passa e logo tem o seu fim,
fica o Natal, a magna Natividade,
e a Criança que sempre vive em mim.” (Almir Martins)
RECEBEU GRAÇA DE ALBERTINA?
MANDE SUA HISTÓRIA PARA NÓS!
Trailer
do filme ALBERTINA: https://www.youtube.com/watch?v=3XggsrQMHbk
CONHEÇA MEU MINISTÉRIO DE
MÚSICA
https://www.youtube.com/c/PadreAuricelioCosta
https://padreauricelio.blogspot.com
https://www.facebook.com/padreauriceliooficial
https://www.palcomp3.com.br/padreauriceliooficial/
https://open.spotify.com/artist/5Bn5nqUJghDOJkY76x7nZ9
https://www.deezer.com/br/artist/67334872





0 Comentários