DR. ARARY DE BITTENCOURT NO ‘VOZES DA REGIÃO’ – SEBO ‘PAIXÃO DE LER’ PROMOVE A LEITURA DE AUTORES DE TUBARÃO

(16/06/2026) Final de tarde em Tubarão. As estradas do centro da cidade estão bem movimentadas. À pé ou motorizadas, as pessoas vão para um lado ou para outro, num vuco-vuco já comum neste horário, mas que sempre me deixa aflito. Cada um quer chegar ao seu destino. Também eu. Quero chegar à residência nº 72, na rua Dr. Otto Feuerschutte, bem no centro, próximo ao Hospital Nossa Senhora da Conceição. Uso um aplicativo (IA) que me coloca diante da residência procurada (‘seu destino está à sua direita’) e, por grande sorte, bem ali, encontrei uma vaga à disposição. 

Cheguei um pouco cedo demais, então, permaneci no interior do carro lendo o tubarosense Tarquínio Balsini. Mais perto das 18h, toquei a campainha e a dona da casa veio acolher-me, falando lá da porta: “Vá entrando e encoste o portão, por favor”. Ali na entrada fui acolhido carinhosamente e logo convidado a subir para cumprimentar o Dr. Arary Cardozo de Bittencourt, que encontrava-se no segundo piso.

Fui o primeiro a chegar para a roda de conversas com o famoso médico escritor. O evento chama-se “Vozes da Região”, iniciativa da Nelcir Miglioli, proprietária do Sebo Paixão de Ler, aqui em Tubarão. Para tão bela e admirável inciativa, um grupo de leitores aceitou o propósito de ler obras de autores da cidade e região e, posteriormente, reunirem-se para partilhar sobre suas experiências literárias. Agora, também estão promovendo visitas aos tais escritores a fim de ampliarem o conhecimento e enriquecerem seu propósito.

Para acessar os dois pisos da casa, observei que o Dr. Arary utiliza-se de uma cadeira rolante, espécie de elevador.

A visita ao escritório e às suas lembranças.

Estando apenas nós dois, ele logo me convidou para descermos até o seu escritório. “Aqui é o meu lugar preferido”, confidenciou-me. Sobre a mesa, estão o computador e alguns apetrechos para escrever. Nas estantes, muitos livros e a sua estimada Barsa. Porta-retratos com imagens de familiares e amigos por toda a parte, além de quadros e diplomas nas paredes.

Num canto, em uma estante, ele mostrou-me a balança de precisão na qual ele pesava as crianças que atendia em seu ministério de pediatra. Ouvindo-o atenta e curiosamente, não controlei meus olhos que fixaram-se numa pequena escultura de gesso, representando uma mão forte e máscula a acolher e proteger uma criancinha que, por sua vez, aguarra-se àquela mão protetora. Não era apenas uma peça a enfeitar o lugar, pois estava carregada de mensagens e afetos.

Então, os colegas de Academia Tubaronense de Letras (ACATUL) Marilene Lapolli, Vivian Mara Silva Garcia e Maristella Patrícia Meneghel Bettiol foram chegando. Também a Rosinélia Bittencourt de Souza (Rosi), parente do anfitrião e escritora da Academia de Letras do Brasil/Tubarão. Permanecemos todos ali no aconchego do escritório. O grupo cresceu com a chegada dos membros do grupo de leitores: Nelcir, Lucas, Eduarda e outro senhor.

A conversa ali foi bem interessante, pois o Dr. Arary contou-nos ‘causos’ de sua profissão e deu dicas a respeito do seu novo livro. Ele lhes apresentou a tal ‘mão acolhedora’ e todos ficaram, assim como eu, ficaram tocados pelo significado da obra.

Uma roda de conversas na sala de estar.

Então, fomos levados à sala de cima, onde nos sentamos em círculo para o bate-papo com o escritor protagonista da conversa. A Nelcir e a Marilene (Presidente da ACATUL) recordaram o objetivo do encontro. Ao cumprimentar os presentes, Marilene fez uma breve introdução, comentando uma crônica do escritor anfitrião recentemente publicada na Coletânea ‘Inspiração em Palavras – ACATUL, 25 anos’ (2025).

“Entendo que o texto ‘Um Milagre de Natal’, do Dr. Arary, tem um grande valor imaterial. Não foi nem o carrinho de brinquedo, tampouco a boneca que salvaram aquele Natal da família, mas a presença de um amigo verdadeiro e generoso naquele momento tão difícil, após o falecimento do pai das crianças. A amizade é, de fato, um valor muito necessário em nossos dias marcado por tanta falsidade e dificuldades interpessoais. Tal texto foi um grande presente que recebemos do Dr. Arary que, através de nossa Academia, se torna imortal para todos os que vierem a conhecê-lo, pois os textos que publicamos podem perpassar muitas mãos e gerações, sem que nós tenhamos algum tipo de controle sobre isso.

Aliás, toda a produção do Dr. Arary é uma grande riqueza, revelando o tesouro de seu interior. No livro ‘Caminhos e Próceres da Medicina Mundial – Nacional – Regional’ (2022), por exemplo, o autor aborda assuntos muito profundos, pois registra a trajetória desta Ciência desde Heródoto até os nossos dias, e faz uma homenagem ao Dr. Otto Frederico Feuerschutte (1881-1971), cuja foto está estampada na capa. O escritor também é membro da Academia Catarinense de Medicina.”

A esse respeito, Dr. Arary comentou: 

“Ah, você me fez lembrar do Dr. Otto. Conheci-o quando ele já encontrava-se acamado e, portanto, já não estava mais na ativa. O seu filho, também médico, o Irmoto, que é quatro anos mais novo do que eu, foi ele quem me levou pra conhecer o seu pai. 

Hoje, por coincidência, a rua onde moramos chama-se Dr. Otto. Também o Dr. Léo, outro grande médico pioneiro da cidade, igualmente estava enfermo quando o conheci”.

A escrita que brota naturalmente do coração.

A conversa a respeito da obra literária do Dr. Arary provocou muitas partilhas e reflexões importantes. A Nelcir fez uma bela apreciação dos livros do médico.

“O Dr. Arary tem uma escrita muito bem estruturada e é prazeroso na leitura. Como grande escritor, trata muito bem as palavras. Em seus livros, ele retrata muitas lembranças.”

Então, questionou o autor: “Como é que o senhor conseguiu guardar e reportar-se a tantos fatos, foi com o uso de fotografias?” .

Ao que ele respondeu: “Bem, eu trago tudo na minha memória. Tenho uma memória privilegiada!”, exclamou.

A escritora Vivian fez uma observação: 

“Dr. Arary, eu percebo que o seu jeito de escrever revela e flui como a sua bondade ao lidar com as crianças, isto é, no jeito como as tratava, sempre com muita naturalidade e amorosidade. E o seu leitor sente essa ternura que vem de dentro do escritor”.

Então, a Marilene compartilhou uma experiência familiar. 

“É verdade. Meus irmãos sofriam com asma e, por isso, nossos pais sempre procuravam o Dr. Arary lá em Capivari. Lembro que, certa vez, mais recentemente, quando ele foi lá em casa, ao olhar minha mãe, cumprimentou-a alegremente e lhe disse: ‘Eu me lembro de você! É a mãe das crianças!’.”

A preservação da memória histórica.

Nesse momento, eu pontuei que há vários médicos escritores, inclusive em nossa Academia; embora nem todos os médicos sejam escritores. Questionando-o sobre o que o levou a registrar suas memórias e experiências profissionais, Dr. Arary remeteu seus pensamentos à sua infância e deu uma bela resposta. 

“O primeiro motivo é que eu sempre li muito. Comecei a ler os primeiros livros lá no Colégio Mauá. Foi lá que me ensinaram e me incentivaram a ler. Havia uma boa biblioteca lá; e eles emprestavam livros pra gente levar pra casa. Eu já não sei se isso ainda é uma prática comum ou se os livros têm que permanecer na Escola. Mas, tomei conhecimento de que, em alguns estabelecimentos, os alunos podem levar os livros para suas casas. Essa é uma prática muito boa e que deve ser estimulada.

Foi aquela oportunidade que eu tive quando menino que me abriu o horizonte para gostar de ler e, mais tarde, para poder escrever. Iniciei lendo livros com conteúdos mais leves; com o tempo, busquei leituras, digamos, mais fortes, mais profundas, conforme o meu nível de escolaridade. Foi assim que fui aprimorando o meu padrão de literatura.

Hoje, por exemplo, procuro fazer mais registros acerca do nosso passado. Tenho a impressão de que nossa memória histórica está se perdendo. Eu pergunto: o que é que temos escrito sobre a história de Tubarão? Houve algumas iniciativas, surgiram alguns livros, mas parece-me que não procuramos desenvolver mais profundamente as pesquisas e registros. Vejam o quão fabuloso foi o trabalho do escritor tubaronense Walter Zumblick [1908-1989]! Quanta contribuição deixou para todos nós!”

A Patrícia concordou com a observação e acrescentou:

“O Seu Walter, esposo da D. Síria, que escreveu ‘Este meu Tubarão...!’ [dois volumes – 1974 e 1976], ‘Aninha do Bentão’ [1980 - este, defendendo o nascimento de Anita Garibaldi em Morrinhos, hoje no território de Tubarão]. Ele era irmão do Willy Zumblick. Parece-me que, com o tempo, de modo geral, o nosso município não tem demonstrado interesse em resgatar a memória histórica de nossa cidade e, até mesmo, incentivá-la em nossas escolas e nos outros setores da sociedade. Isso é muito interessante e importante refletir. Eu penso que se cada um registrasse um pouquinho a respeito do seu recanto e de suas experiências e pesquisas, teríamos o todo um pouco mais completo”.

A conversa foi ficando ainda mais interessante, motivando a Nelcir a compartilhar uma experiência que ela viveu.

“Quando faleceu o Seu Amadio Vettoretti [em 27 de agosto de 2011, aos 72 anos], eu adquiri todo o acervo que era dele. Era uma grande riqueza em matéria de pesquisas, de História... Eu até questionei a Prefeitura, na época, sobre o seu interesse em comprar aquele material. E o fiz mesmo sabendo que o seu Amadio não queria que o acervo fosse levado para a Biblioteca Municipal, pois, certa vez, ele teve uma experiência muito ruim. E isso ele deixou registrado à mão num determinado livro: ‘Obra recolhida a caminho do lixo destinado pela bibliotecária’. Ele tinha receio que não tivessem o devido zelo pelos livros mais antigos. Ele entendia que uma Biblioteca deveria prezar pelos livros, pois são muito ricos em histórias.”

Neste momento, todos respiraram fundo. E os amantes de livros entreolharam-se quase em silêncio.

E, através das vidraças das grandes janelas da casa, ornadas com encantadoras cortinas cor-de-rosa entreabertas, percebia-se que o breu descera sobre a cidade em seus últimos suspiros de outono.

Então, Vivian fez uma pergunta objetiva ao longevo escritor: “O senhor sempre leu muito... Houve algum livro que lhe serviu de inspiração?”. E ele, prontamente respondeu: “Ah, o livro do Walter foi muito importante para mim”, ratificando o que havia dito antes.

Talvez não precisasse dizer mais nada, mas eu intervi para compartilhar minha experiência: 

“Pois, também para mim, esse livro (o 1º volume) foi um marco em minha juventude. Ele me despertou o desejo e o senso de necessidade de registrar os fatos históricos de meu bairro e certa curiosidade em conhecer mais sobre minha cidade e a região. Talvez aquela obra merecesse uma edição histórica, revista, ampliada...”.

O ancião sempre será um ‘menino’.

E aproveitei o momento para trazer à tona outra obra do Dr. Arary: ‘O Menino de Oficinas’. Publicada em 2008, nela o autor recorda fatos pessoais, familiares e a respeito de sua comunidade, o bairro de Oficinas, aqui nesta cidade de Tubarão, ocorridos lá pelas décadas 1940 e 1950. Então, o escritor fez o seguinte comentário: 

“Em outros tempos, Oficinas era um bairro isolado da Praça (o centro de Tubarão). Ainda hoje, referindo-se aos que moram em Oficinas, dizem: ‘o povo da Zófa’. Às vezes esse termo era usado de forma pejorativa, pois a nossa era uma vila de operários, geralmente da Estrada de Ferro, com poder aquisitivo inferior ao das pessoas da Praça.

De certa forma, a inexistência de uma ponte sobre o rio Tubarão que facilitasse a nossa frequência à Escola (o Colégio Dehon, na margem esquerda), nos deixava mais separados ainda. Não havia a ponte pênsil (de arame). Para fazer a travessia, havia uma balsa lá na curva, onde há a pedreira; ou caminhava-se até à ponte no centro da cidade. A solução de uma canoa nem sempre era possível, como quando o rio enchia muito. Tudo era muito longe.

Depois chegou o ônibus circular, ainda somente na margem direita do rio; mas nós não tínhamos dinheiro para pagar o ingresso. No verão, sob o sol escaldante, tudo ficava mais difícil ainda. Era, praticamente, uma hora de caminhada entre a nossa casa e a escola. E tem mais: a gente não tinha sapato; caminhávamos descalços. Eu trato disso tudo no livro. E essa minha realidade, podem ter certeza, eu não tenho vergonha alguma de lembrar e nem de contar.”

A Marilene festejou: “Não obstante tanta dificuldade, surgiu um grande médico na Zófa!”. E todos aplaudiram.

A conversa sobre o conteúdo da obra continuou. Apartir do testemunho ouvido, Nelcir destacou que “a escola Mauá, de certa forma, deu grande autonomia, promoveu a igualdade e a valorização do bairro”.

E a Rosi, moradora de Oficinas, disse: 

Antigamente, ali no nosso bairro, tínhamos a Ferrovia, a Vila dos Ferroviários, a igreja São José e um pequeno povoado que crescia na enconsta do morro. O restante era tudo mato. Havia roças e nossos pais se utilizavam dos carros de bois para o transporte de mercadorias e de pessoas. Com o tempo, a Vila foi se desenvolvendo com a construção de boas casas e até havia gente de posses por lá. Dentre esses, destacava-se o Dr. Becker”.

Então, o Dr. Arary observou: 

“O Dr. Becker? Ele era engenheiro e foi quem construiu esta casa aqui onde nós residimos há mais de 50 anos! Vocês estão achando lindo esse assoalho, né? Pois bem, esta madeira resistente é ipê, vinda da Amazônia e que resiste até aos cupins. Costumo dizer que se eles se aventurarem contra ela, vão ter seus dentes quebrados”.

Um novo livro está chegando!

Aos 90 anos de idade, Dr. Arary não para de escrever. Disse que costuma levar em torno de um ano a um ano e meio para deixar pronto um novo livro. E revelou que já está concluindo uma nova obra. 

“Esse novo livro que estou preparando é mais tocante à área médica. Ainda não tem um título definido. Nele, darei continuidade a contar a história do menino que viveu no bairro Oficinas, que teve origem numa família pobre. Falo sobre minha passagem pela Escola Mauá e pelo Dehon, que era dos padres do Coração de Jesus. Abordo o tempo vivido no Colégio Catarinense (Florianópolis), dos jesuítas, que foi uma das boas oportunidades de minha vida.

Recordo que, certa vez, consegui ir morar em Curitiba, junto de uma tia enfermeira, que muito me estimulava a estudar. Nas cartas que trocávamos, eu partilhava com ela minha intenção de ser médico. E eu me inspirava nas histórias do Dr. Alceu Laposte e do Dr. Asdrubal Costa, que era Clínico Geral, mas fazia até cirurgia também. Ele foi para o Rio de Janeiro, estudou Pediatria e tornou-se Catedrático em Pediatria lá na capital, enaltecendo o nome de nossa Tubarão. Essa é uma honra para a nossa cidade que poucos tubaronenses conhecem. Eu ainda guardo uma carta dele, em resposta a uma carta que lhe enviei; e pretendo publicar essa história.

No novo livro, falarei também sobre minhas outras histórias pessoais, isto é, de minhas aventuras; pois, de onde eu venho, tudo é aventura. Embora eu sempre tenha sido uma criança bem comportadinha; além do que, nossa mãe nos mantinha com rédeas curtas.

Às vezes eu fugia de casa para jogar bola num campinho, lá perto da igreja, próximo ao campo do Ferroviário, e minha mãe ia atrás me buscar e mandar de volta aos estudos.

Éramos somente nós três: a mãe, eu e minha irmã. Nosso pai morreu de tuberculose quando eu tinha dez anos de idade. Nossa mãe era mal alfabetizada e nos criou fazendo roupas para a vizinhança, em sua máquina de costura manual portátil. 

Por isso, quando eu morava lá em Curitiba, com meu primeiro salário, eu fui na loja Prosdócimo (que tinha filial aqui em Tubarão) e comprei uma máquina de costura e mandei-a para ela. Paguei-a numa prestação de doze vezes. Eu gostaria de ter ainda hoje aquela máquina. Tinha um pedal (talvez fosse uma Elgin); além de ser um instrumento lindo, carregava muitas histórias com ela!”

Ao contar a sua própria história, o autor permite que o leitor não apenas penetre na vida de um escritor, mas deixe-se envolver pelas memórias de sua própria história pessoal.

Como observou a Nelcir: 

“Dr. Arary, num dos seus livros, é muito comovente e belo o seu relato sobre quando, certa vez, um médico visitou o seu pai enfermo em casa; ao passar pelo senhor, ainda menino, o doutor lhe afagou a cabeça. E aquele gesto o senhor nunca esqueceu”

O escritor ficou emocionado com a menção de fato tão remoto e significativo.

Então, diante daquele senhor tão simples e sereno, a Patrícia comentou: 

“Dr. Arary, os olhos do senhor possuem uma luz que, de minha parte, enxergo como muito grande. Por isso, afirmo que o senhor é um homem iluminado e abençoado, por sua natureza”.

A importância de Karl May.

A jovem escritora e poetisa Eduarda Barreiros Schotten, tubaronense da Guarda ME (Margem Esquerda), já publicou dois livros: ‘A Garota Feita de Poesia’ (2023) e ‘E no Final Todos Viramos Saudades’ (2025). Dirigindo-se ao Dr. Arary, perguntou: “O que mais lhe inspira a permanecer escrevendo?”. E o ancião respondeu tranquilamente, dizendo que, talvez, pelo fato de ainda não ter conseguido atingir aquele nível de autores como Karl May.

“Assim como devorei os poucos livros que havia na biblioteca do Mauá, também procurei ler todos os bons livros que encontrei na biblioteca do Dehon. Lembro-me do livro sobre Winnetou [famosa série de romances sobre o Velho Oeste, publicado em 1875, cujos personagems eram Shatterhand e Winnetou, um indígena apache], do escritor alemão Karl May (1842-1912). Marcou-me muito, muito, muito! Algo naquele livro fez com que eu me identificasse com os personagens. Em minhas obras, de certa forma, tento desenvolver o que este e outros autores fizeram.”

Houve um momento da roda de conversas em que a Rosi declamou o poema ‘Honrando o velho agricultor’, de sua autoria, em homenagem ao Dr. Arary. E explicou a sua deferência: 

“Sou muito agradecida ao Dr. Arary. É graças ao seu grande amor à Pediatria que eu estou aqui. Vinda de uma família numerosa de vinte irmãos (considerando três abortos espontâneos), eu seria a sexta criança a falecer lá em casa não fosse a atuação do Dr. Arary. Certa vez, minha mãe me trouxe desmaiada até ele, por conta das fortes dores abdominais que me atormentavam. Ele é nosso parente e nos atendeu mesmo sem a gente poder pagar. Na época, vermes matavam as crianças. E ele resolveu o meu problema”.

Deixar um legado às futuras gerações.

O jovem psicólogo Lucas participa das atividades do Grupo de Leituras do Sebo. Ele questionou o Dr. Arary sobre como ele descobriu o desejo de escrever.

“Bem, com o tempo, eu passei a preocupar-me em deixar algumas coisas registradas, como um legado. Tenho notado como facilmente as coisas se perdem. Há certas coisas que eu sei e que a maioria das pessoas ainda não sabe. Temo que ninguém queira escrever sobre certos fatos que eu julgo importantes para todos; então, decidi: vou escrever.”

De fato, aquilo que não é registrado, facilmente se perde. E a gente não é dono daquilo que escreve e publica. Pensando nisso, compartilhei com os colegas uma pequena reflexão.

“Noutro dia, ao ler um dos livros do Ramires Sartor Linhares [‘Bom-dia, Boa-tarde, Boa-noite... Conforme a Ocasião’, 2022], encontrei uma citação a respeito de certa obra do Tarquínio Balsini [‘Umas e Outras – crônicas’], da qual eu nunca ouvira falar e que me despertou grande curiosidade.

Lá no Sebo, a Nelcir conseguiu uma cópia e eu li as 40 crônicas sobre nossa cidade. É uma edição antiga, rara, e que conta tantas histórias que, se o Tarquínio não tivesse escrito e a Editora Força Jovem, do Nery Paes de Farias Filho, não tivesse publicado, certamente eu não teria tomado conhecimento de tanta beleza e curiosidades.

O escritor, se ainda vivesse, certamente nunca saberia que o seu livro tem sido meu companheiro nesses dias. Realmente, depois que a publica, o autor não domina mais a sua obra. Foi o que aconteceu com o Dr. Arary: ele somente soube que eu li e gostei muito do seu livro ‘Menino de Oficinas’ porque eu lhe disse.”

E a Patrícia continuou: 

“Se, com a minha escrita, por exemplo, eu conseguir tocar de alguma forma uma única pessoa, de modo que aquilo foi bom para ela, então eu digo que já está de bom tamanho o meu reconhecimento. Jamais alcançaremos todas as pessoas. Pode acontecer que alguém tocado por nós reverbere aquilo que leu e sentiu para outras pessoas de seu relacionamento. O número de leitores não deve nos preocupar.”

E a questão da IA?

No final do encontro, a Nelcir apresentou o tema da Inteligência Artificial.

“A escrita do Dr. Arary, sobretudo quando ele narrava as brincadeiras, os brinquedos, o andar com pés descalços na terra... me tocou de certa forma que eu revisitei toda a minha infância. Foi uma visita às minhas raízes. Quando trata daquele azul do nosso rio, por exemplo, nos vêm à mente tantas imagens, visto que muitos já nem conheceram o rio assim.

Mas hoje, ainda temos outro desafio: precisamos lidar com o advento da Inteligência Artificial, que provoca muitos questionamentos. Mas é certo que a IA não pode oferecer momentos como esse aqui, de partilha de vida. E não podemos desanimar com relação ao número de leitores. Eu posso lhes dizer, com base no meu trabalho, que percebo o aumento de adolescentes e jovens se interessando por leitura de livros físicos também. Em nosso Sebo, 90% dos clientes são dessa faixa etária.

Noutro dia, inclusive, uma cliente testemunhou que sua filha adolescente disse que os lugares que ela mais ama são a casa onde mora, a casa da vó e o Sebo. Que coisa linda, não é mesmo? Isso mexe com a gente!”

Atenta, a Vivian comentou a respeito da primeira Carta Encíclica do Papa Leão XIV, recém lançada, sobre esse tema da IA. Chama-se ‘Magnifica Humanitas’

“Ele nos mostra que a IA nunca conseguirá proporcionar momentos de convivência como este aqui, de emoções e partilhas de vida e que a nossa humanidade precisa ser sempre mais valorizada. É preciso sabermos usar as máquinas e tecnologias, sem nos deixarmos usar por elas.”

Concluindo o encontro, pediram que o Dr. Arary deixasse uma mensagem de incentivo aos adolescentes e jovens. E o nonagenário escritor afirmou: 

“Aos mais jovens, eu tenho apenas uma indicação a fazer: estudem! Somente assim serão leitores e escritores. Estudem!”.

Tubarão anoiteceu. Há menos movimento e ruídos nas artérias que cortam a cidade. Após o lanche servido com generosidade, todos retornaram para seus afazeres bem mais enriquecidos do que quando chegaram. E o Dr. Arary estava feliz!


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