“O ENCONTRO COM O RESSUSCITADO” – HOMILIA DA VIGÍLIA PASCAL

(04/04/2026) Neste Sábado Santo, durante a Missa da Vigília Pascal na matriz São Martinho de Tours, em Tubarão, Pe. Auricélio proferiu a seguinte homilia.

O encontro decisivo.

Algo de muito maravilhoso aconteceu no coração dos Apóstolos medrosos naquele Sábado da Páscoa. O encontro com Jesus Ressuscitado provocou uma revolução interior em seus corações. A experiência da Graça de Deus eles a viveram plenamente quando receberam, daquelas mulheres, a notícia: ‘o túmulo está vazio’. Elas disseram que o Anjo lhes havia confiado a seguinte mensagem: ‘Ele ressuscitou como havia prometido para vocês; e Ele quer encontrar-se com vocês lá na Galileia’.

O retorno à Galileia.

Irmãos, o que é que tem na Galileia? Lá tem Nazaré; lá tem a cultura daquele povo, o jeito daquele povo viver, foi lá que o menino Jesus cresceu, foi lá que Ele se entendeu gente e se descobriu Deus; foi lá que aprendeu a língua materna, lá aprendeu os valores da sua cultura, foi lá que Ele sentiu o drama do seu povo que era roubado pelos poderosos do seu país e pelo imperador de Roma.

Foi lá em Nazaré que sua mente, seus olhos, seus ouvidos, seu coração e seus sentidos se abriram para a realidade humana que Ele, sendo Deus, abraçara.

Foi em Nazaré que tudo começou e onde seus amigos e primos se tornaram discípulos e Apóstolos.  Jesus ressuscitado manda-lhes um recado: ‘Eu quero encontrar-me com vocês lá na Galileia, lá onde tudo começou’. Não se trata de um mero retorno para o começo (‘flash-back’). Desta feita, é um retorno de Vida Nova; é um retorno não para fazer tudo o que foi feito. Não é uma mera revisão do que foi feito, mas é para iluminar a história a ser feita dali para frente, com a luz do Ressuscitado.

A mulheres serão as mensageiras da Ressurreição.

O encontro com o Ressuscitado vai mudar a vida dos Apóstolos: antes medrosos e trancafiados do Cenáculo, com portas fechadas; agora, homens corajosos. Tal transformação foi registrada nos quatro Evangelhos e no texto de São Paulo: 1º Coríntios 15, Mateus 28, Marcos 16, Lucas 24 e João 20. O interessante é que Jesus Ressuscitado aparece às mulheres em primeiro lugar. E isso não é um dado qualquer, com pouco significado. Nada do que nós estamos celebrando é sem significado.

Ele quis aparecer por primeiro àquelas mulheres que, para a sociedade de então, estavam entre os últimos, pois não tinham respeitada sua dignidade, nem direitos tinham, e deviam sujeitar-se a todas as normas do ‘status quo’ vigente e sujeitar-se ao feminicídio. Não tinham outra função social que não parir os filhos dos homens e cuidar dos meninos. Jesus as engrandece. Eis aí uma lição para nossos dias. E Ele lhes confirma a missão dada através dos Anjos: ‘vão lá falar com os outros’.

Esse dado é tão bonito: elas saem ‘apressadamente’, não ficam ali de conversa. Há uma urgência em dar o grande anúncio. Tal urgência permanece até hoje porque muitos ainda não conhecem Jesus. Não pensem que aqui em São Martinho a situação é diferente. Porque no ano passado tivemos uma turma de Catequese de Adultos, inclusive com alguns que foram batizados; e, agora, estamos com uma nova turma com 17 jovens e adultos, dentre os quais cinco serão batizados. E até mesmo entre nós que frequentamos a igreja desde criança, se perguntarmos algo sobre Jesus é capaz que não saibamos responder.

As mulheres recebem então uma primazia, um destaque especial no projeto do anúncio do Ressuscitado. Todavia, não serão anunciadoras sozinhas, mas sim em conjunto com seus companheiros, com os Apóstolos. Portanto, é missão da Igreja (do casal, da família...) anunciar Jesus!

‘Procissão da Pressa’

Esse episódio me faz recordar uma experiência que vivi por dez anos em Imaruí: neste momento da Missa da Vigília Pascal, há mais de 100 anos, os fiéis fazem uma procissão na qual as pessoas saem quase correndo da igreja, dão uma volta na Praça e retornam para o templo. Chama-se Procissão da Pressa, recordando a mensagem que foi confiada às mulheres e o seu gesto de prontidão no levar a mensagem adiante. Outro belo ensinamento: a urgência do anúncio de Jesus Cristo como o Senhor e do seu Reino de Amor!

Reconhecer o Senhor que envia.

A experiência do encontro com o Ressuscitado transformou profundamente a vida dos Apóstolos. Jesus toma a iniciativa de ir ao encontro das mulheres e, depois, virá o encontro dos Apóstolos e dos discípulos.

Mas, notemos também a importante atitude dos Apóstolos ao reconhecerem a Pessoa de Jesus Ressuscitado. Somente Tomé teve dificuldade inicial porque não estava unido à comunidade quando Jesus lhes apareceu pela primeira vez. Tal dificuldade ocorre conosco se nos separarmos da vida de comunidade. Não basta que estejamos presentes apenas de corpo; é necessário termos comprometimento interior e efetivo.

E os Apóstolos assumem a missão que Jesus lhes dá. É a sua vez de tornar o Cristo presente em todo lugar, no mundo inteiro, apresentá-Lo a todas as pessoas, em todas as línguas e a todos os povos. É isso o que a nossa Igreja Católica vem fazendo há dois mil anos em todos os continentes. Onde a Igreja pode entrar, ela entra e anuncia Jesus, formando comunidades de fé. E os novos cristãos, então, tornam-se missionários e testemunhas do Senhor. Em nosso bairro possuímos muitas pessoas e famílias que nem conhecem Jesus.

Reconhecer o Senhor.

Lucas explica que diante de Jesus, seus olhos se abriram e eles reconheceram: ‘é o Senhor’! O processo de compreensão e de conversão dos discípulos a respeito do mistério da Ressurreição, na liberdade para a adesão, dá espaço até mesmo para se duvidar, e para a gratuidade, podendo aproximar-se de Jesus e, inclusive, tocar n’Ele e tomar a Ceia com Ele. Para convencê-los de que não é um ‘fantasma’, come peixe com seus amigos: e somente lhes pede que tenham fé. ‘Vocês creram porque viram; felizes os que haverão de crer sem terem visto’.

Jesus pede de nós atitudes de fé e de discernimento, isto é, buscar conhecimento das coisas de Deus, de Sua mensagem, de seus ensinamentos. E em nossos dias, não basta que nos conformemos com aquilo que recebemos quando fizemos a Catequese da Iniciação à Vida Cristã. É necessário participarmos de grupos da Igreja para conhecê-la melhor e, no Espírito Santo, termos um discernimento a fim de perseverarmos e nos mantermos firmes no caminho de Jesus.

Anunciar o Ressuscitado.

Somos testemunhas da Ressurreição! E a experiência pascal que estamos fazendo hoje, meus irmãos, é interessante: estávamos na escuridão e, de repente, brotou a luz da Ressurreição. Essa experiência é uma experiência pascal, transformadora, pois, na vida da gente, muitas vezes estamos mergulhados na escuridão. E como é bom quando se pode contar com a esperança da fé cristã.

Jesus nos enviou: ‘Vão ao mundo inteiro e anunciem o Evangelho’. O Evangelho é a Boa Nova, ou seja, é o próprio Jesus vivo e ressuscitado! Tal anúncio tem uma força irradiante que vai passando... passando... de geração em geração. Porém, dentre nós, quantos da nossa própria geração ainda não receberam o anúncio ou, se o receberam, o desprezaram! Quantos dos de nossa família não participam mais da vida de Igreja!

O anúncio de Cristo ressuscitado provoca uma onda irradiadora do amor de Deus. Nós não podemos desanimar da nossa missão. O Cristo ressuscitado é o mesmo Cristo crucificado. Ele sofreu por nós e nós estamos aqui, diariamente, carregando a nossa cruz, na certeza de que haveremos de ressuscitar também com Ele.

A entrega por Amor.

Irmãos e irmãs, neste Tríduo Pascal que hoje encerramos, percebemos como amar a vida, além da própria vida e além de nós mesmos, é o caminho que o Senhor nos ensina com seu próprio testemunho. Na Quinta-feira Santa, nós O vimos entregar-se aqui no altar, depois de lavar os pés dos Apóstolos, como pão e vinho. Ontem, Sexta, como meditamos na encenação e na procissão, Jesus entregou-se por amor. Encontrar-se com Jesus é, também, tomarmos uma atitude de esvaziamento de nós mesmos.

No Amor, vai crescendo em nós o desejo de darmos nossa própria vida para que o outro viva mais e melhor. Tal experiência nós já temos em nossas famílias, especialmente no testemunho dos nossos pais e avós: entregam-se totalmente para o bem de seus filhos e netos.

Também nós vivemos essa experiência de martírio quando, no dia a dia, vamos nos entregando na nossa missão pastoral. E eu fico realmente emocionado e tocado com o exemplo de tantos aqui que, às vezes, me dão a impressão de que gostariam de morar aqui dentro da igreja, de tanto que gostam de ajudar, de participar e de favorecer para que a comunidade se reúna e celebre a sua fé. Tais pessoas, além de tudo que têm para fazer na sua vida pessoal, familiar, profissional... ainda se dedicam para o bem da comunidade!

Vejam, muitas pessoas se envolveram para que nós pudéssemos estar celebrando agora. Estou falando de uma entrega martirial, de doação de vida, de si mesmo!

‘O barco está em alto mar!’

E, quando a gente entra neste caminho, eu lhes digo: não há mais retorno, o barco já está em alto mar (como naquela canção)!

Quero contar uma experiência pessoal que eu vivi na Guiné Bissau, na África subsahariana. Nutro dia, aqui, eu comentei de minha experiência na guerra no Sul do Senegal e a respeito dos quatro golpes militares que aconteceram na Guiné enquanto eu estava lá em missão. Infelizmente, agora no final do ano passado, aquele povo amado sofreu novo golpe militar. Como sofrem aqueles nossos irmãozinhos!

Nessas situações, eu precisava ficar trancado dentro de casa, pois temíamos ser vítimas de alguns radicais que promoviam ódio aos estrangeiros, como até hoje percebemos em tantas partes do mundo. Eu tinha medo e me perguntava: será que eles virão aqui em casa? Eu via os pelotões do Exército passar na frente da missão. Via as pessoas armadas e a população intimidada, amedrontada e até revoltada. Mas, na fé, eu cheguei a uma conclusão: não dá mais para voltar; é aqui que eu devo ficar.

Pouco antes disso tudo, meus amigos que foram para as Filipinas (o Sidnei Modolon, de Treze de Maio, e o Henrique Pereira, de São Ludgero), por questão de um minuto não sofreram um atentado por ódio religioso, da parte de um grupo muçulmano radical, que vitimou o Pe. Salvatore Cerzeda (PIME, Itália). Ele foi metralhado na frente da casa onde eles se encontravam pelo fato de estar trabalhando no diálogo inter-religioso.

Naquela ocasião, eu estava concluindo meus estudos de Teologia. Ao saber do atentado, dirigi-me à capela do Seminário e disse: Senhor, eu vou! Eu vou, Senhor! E, de fato, fui enviado para a África. Não é que eu seja corajoso, mas é que ‘o barco já estava adiante’ e, quando a gente faz uma experiência de encontro com Jesus, um Amor super abundante vai tomando conta da gente. Eis o Amor que é característica do cristão e do Ressuscitado e que habita no nosso peito. É o que nos recorda o Círio Pascal: o martírio tornou-se vitória!

Lições do Tríduo Pascal.

Nós proclamamos que ‘Jesus Cristo é o Senhor’. Tal frase resume o querigma, isto é, a pregação apostólica. Chamar Jesus de Senhor significa recordar que Ele ressuscitou, pois é um título próprio do tempo pascal.

Irmãos o abandonado da Sexta-feira Santa é o mesmo Redentor da humanidade, que irrompeu de dentro do túmulo. Ele é o Filho de Deus! Ele é o Filho do Homem! Saiu do Pai, fazendo um êxodo em direção a nós; mas também saiu de si, fazendo um êxodo em direção a nós e, mais uma vez, saiu de nós para retornar ao convívio do Pai, na Ascensão. Também nós precisamos caminhar nesta dinâmica a fim de promovermos a vida e a esperança.

É preciso manter o nosso coração atento aos apelos de Deus; mantê-lo solidário para com as pessoas mais frágeis. Esta é a oportunidade de testemunharmos Jesus Cristo. Ele, que é o Bom Pastor, volta para o Pai, mas permanece entre nós com seu Espírito Santo. Somos a Igreja do Senhor. Sem a Ressurreição, não passaríamos de uma empresa, ou de uma ONG; mas nós somos a família do Ressuscitado! Somos a família da Páscoa de Jesus! É preciso encher a nossa vida com a luz do Ressuscitado, ao ponto de, um dia, podermos dizer: ‘já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim’. Amém!


RECEBEU GRAÇA DE ALBERTINA? 

MANDE SUA HISTÓRIA PARA NÓS!

(peauricelio@yahoo.com.br)

                                                                           

Trailer do filme ALBERTINA:  https://www.youtube.com/watch?v=3XggsrQMHbk

História de Albertina – narração: Pe. Auricélio e seus pais Sebastião e Osmarina – https://www.youtube.com/watch?v=D18M67Tpunc     

Fotos: PASCOM SM/TB      

CONHEÇA MEU MINISTÉRIO DE MÚSICA

https://soundcloud.com/peauricelio

https://www.youtube.com/c/PadreAuricelioCosta

https://padreauricelio.blogspot.com  

https://www.facebook.com/padreauriceliooficial

https://www.palcomp3.com.br/padreauriceliooficial/

https://open.spotify.com/artist/5Bn5nqUJghDOJkY76x7nZ9

https://www.deezer.com/br/artist/67334872


Postar um comentário

0 Comentários