(04/01/2026)
Foi no dia 06 de janeiro de 1863, há 163
anos portanto, que nasceu o poeta Virgílio dos Reis Várzea, o autor da
expressão “Cidade Azul”, ao referir-se à cidade de Tubarão, no Sul catarinense.
Tal efeméride levou-me a refletir sobre tão bela alcunha.
Muitas vezes eu me deparei comigo mesmo
absorto observando o céu azul de minha cidade. Durante muito tempo
questionava-me sobre o porquê de minha Tubarão ser chamada de ‘Cidade Azul’. De
fato, nosso céu é maravilhoso, mas, e noutras regiões, será que ele não é, também,
assim tão belo? Ainda hoje, passeando pelas estradas da cidade, por toda parte encontramos casas,
prédios e objetos com predominância da cor azul, mas, as outras cores também fazem-se
presentes.
Eu sei que existem projetos urbanísticos
que, para favorecer o turismo (e o comércio que advém daí), definem quais cores
devem predominar nos prédios e residências e demais monumentos públicos.
CIDADES E CORES PADRÃO
Numa breve viagem pelo mundo, em minhas
buscas, lembrei-me da arquitetura de Walter Gropius, que gerou a construção da
Cidade Branca em Tel-Aviv (Israel). No Marrocos, por conta da terracota das
edificações, Marrakech é conhecida como a Cidade Vermelha. Neste mesmo país, nas
montanhas Rif, situa-se Chefchaoen, a Cidade Azul, também apelidada de ‘pérola
azul’; é considerada a mais azul do mundo.
Também Jodhpur, na Índia (Estado do
Rajastão), as edificações são predominantemente na cor azul, visando absorver o
calor e repelir insetos. Mas foi na guerra entre Jaipur (a Cidade Rosa), e
Jodhpur que os brâmanes (sacerdotes hindus) conseguiam certa proteção pela coloração
azul de suas casas que imitavam a cor azulada da pele do deus Shiva.
O tom vibrante de amarelo ocre dos
edifícios de Izamal, no México, como homenagem ao sol, deu-lhe o título de
Cidade Amarela.
Aqui no Brasil, em 1992, durante a ECO-92, no Rio de Janeiro, o prefeito de João Pessoa, na Paraíba, atribuiu à sua cidade o título de Cidade Verde; e isso tem atraído mais e mais ecoturistas para lá. Mas, também, Campo Grande (MS), Goiânia (GO) e Campinas (SP), entre outras, reivindicam tal ecológica denominação.
CIDADES COLORIDAS
Refletindo sobre o Azul de minha cidade,
pergunto-me: e se as cidades fossem multicoloridas? Mas, será que elas existem?
Bem, existem muitas iniciativas em todo o mundo, tanto de populações quanto de
gestores, que se orgulham de viver nas ‘cidades mais coloridas’ do país ou do
mundo.
Elas revelam que, em tais cidades, é
possível encontrar muito mais do que concreto, asfalto, ferro, aço e confusão
de trafegabilidade. O colorido das edificações expressa arte, criatividade,
pluralidade, alegria, festa, esperança, dinamismo, beleza e vitalidade.
Isso pode ser percebido com nitidez em
cidades como a colorida Guanajuato, no México,
que atrai uma multidão de turistas anualmente e foi declarada Patrimônio Mundial
da UNESCO.
Também na Itália há uma famosa cidade
que sabe bem explorar o amplo leque de cores de suas casas e edifícios: Burano,
uma das muitas ilhas do arquipélago de Veneza. Famosa pelas suas rendas que
eram apreciadas por reis e rainhas do século XIV, também é conhecida pelo fato
de os pescadores pintarem de forma multicor suas casas a fim de reencontrá-las
facilmente à distância, após as jornadas dentro do mar.
Na África do
Sul, a cidade de Bo-Kaap é famosa pelo colorido das residências, obra de
escravos e refugiados, inclusive dos países vizinhos. Eles começaram a chegar
em 1700 e encontraram ali um abrigo. Ao colorirem suas casas conforme suas
culturas, amenizaram o drama de suas vidas e criaram um clima mais alegre, como
força da superação.
Surfando nessa ‘onda azul’, eu penso em
Reykjavík, capital da gelada Islândia, terra de geleiras, gêiseres e vulcões
ativos. O colorido vivo das residências transmite aos moradores e visitantes uma
sensação de alegria, de descontração, de revigoramento e otimismo, que os ajuda
a suportarem os rigores do frio.
Como não lembrar-me de Aveiro, em
Portugal, e sua famosa e encantadora vila Costa Nova, na região praiana? Assim
que lá cheguei, na praça do lugar, fiquei tão impressionado e impactado com
aquele cenário que detive-me a admirar as tais Casas às Riscas (Palheiros,
antigas casas de pescadores), coloridas e listradas, criando uma atmosfera
intrigante e aconchegante ao mesmo tempo.
E, chegando à América Latina,
encontramos Valparaíso, no Chile, próxima a Santiago. Dizem que parece miragem
aquela cena de casas multicoloridas nos morros de vista para o Pacífico. Os
trabalhadores da cidade portuária, muito pródiga em outros tempos, aproveitavam
as tintas que sobravam das pinturas de navios para enfeitarem suas casas. E o
resultado é um espetáculo!
O Brasil orgulha-se de possuir recantos
como o colorido Pelourinho, em Salvador, capital da Bahia, onde a africanidade
revela-se nas veias e nas expressões culturais de sua gente. Também em
Pernambuco temos Olinda: a antiga capital, que chegou a ser ocupada por
holandeses, destaca-se pelo colorido de seus casarões e comércio. Após o
trabalho de recuperação das antigas cores das fachadas de suas casas, Olinda tornou-se
ainda mais atraente para os milhares de turistas que a visitam.
E o que falar de Holambra, a Capital das Flores, no Estado de São Paulo, possuidora de uma arquitetura multicolorida que é uma atração à parte?
O POETA SENSÍVEL
Ah, preciso retornar à minha Cidade
Azul. Por que o poeta Virgílio dos Reis Várzea apelidou Tubarão com este
codinome? A resposta é simples: ao visitar a cidade, num daqueles dias
esplendorosos que conhecemos muito bem, ele
encantou-se com o reflexo do céu nas águas do rio Tubarão, percebendo, no
cenário que contemplava, o arvoredo de suas margens e as montanhas azuladas da
região.
Graças à sua sensibilidade
de poeta descritivo, logo registrou: “O rio
passa, serpenteando, e no seu rastro de prata, banha a Cidade Azul”. Eis o
carinhoso apelido dado à Tubarão e que orgulha, até hoje, todos nós, os mais de
110 mil tubaronenses.
Por isso, vale a
pena conhecer melhor Virgílio Várzea.
Foi à beira mar, na freguesia de São
Francisco de Paula, ou seja, Canasvieiras, que nasceu Virgílio. Lá, na Ilha de
Nossa Senhora do Desterro, (que seria rebatizada Florianópolis em 1894), viu a
luz do sol e o azul do mar pela primeira vez. Era o dia 6 de janeiro de 1863.
Seus pais João Esteves, que era Oficial da Marinha Imperial, e Júlia Maria,
filha de um Major, tiveram quatro filhos. Mais tarde, Virgílio ganhou mais dois
meios-irmãos.
O menino cresceu dentro de navios,
acompanhando o trabalho de seu pai. Tal experiência transparecerá em seus
escritos e poesias, merecendo-lhe a distinção como ‘escritor marinhista’. Na Ilha, ele iniciou seus estudos, mas os
concluiu no Rio de Janeiro.
Jornalista formado, aventurou-se por
vários gêneros literários, inclusive com estudos históricos e geográficos. Por
isso, ganhou relevância e a amizade de escritores como Olavo Bilac, Gonzaga
Duque, Coelho Neto, Guimarães Passos, Pardal Mallet e muitos mais. Da parceria
com o poeta Cruz e Sousa, publicou-se “Tropos
e Fantasias” (1885).
Nos anos de 1894 e 1895, Várzea envolveu-se
com um movimento literário conhecido por ‘Ideia Nova’, valorizando o Realismo e
o Naturalismo na literatura local. Os grandes debates que sugiram a partir daí
trouxeram-lhe enormes dissabores e muitos opositores. Inclusive, certa vez, seus oponentes chamaram-no
e aos seus amigos de ‘micróbios’,
‘malucos’, ‘maribondos de letras’ ou
‘fedelhos literários’. Por outro lado, alguns o designavam como um “poeta moderno, realista e objetivo”.
Virgílio participou da edição de
revistas e foi redator de jornais, tanto no Rio de Janeiro quanto em Santa
Catarina. Auxiliou nos trabalhos de uma Comissão para a tradução da Bíblia para
o português e, em 1920, foi membro fundador da Academia Catarinense de Letras, ocupando
a Cadeira 40. Mais tarde, sua Cadeira foi ocupada pelo
historiador e jurista lagunense Norberto Ulysséa Ungaretti. Atualmente, a Cadeira
pertence ao escritor joinvillense David
Gonçalves.
Passado algum tempo, ele ingressou na
Academia Brasileira de Letras, ocupando a vaga do também catarinense Afonso D’Escragnolle
Taunay (filho do Visconde de Taunay).
Em sua carreira, além de Escritor, Virgílio
atuou
como Jornalista, Professor, Deputado Estadual (SC), Inspetor Escolar, Secretário da
Capitania dos Portos e
Promotor Público.
Faleceu em 29 de dezembro de 1941, no
Rio de Janeiro/RJ, de causa não especificada. Tinha 78 anos de idade.
Permanece ‘imortalizado’ nas inúmeras obras e artigos que publicou, tais como: “Traços Azuis” (1884), “Mares e Campos” (1895), “Os Argonautas” (1908) etc.
POÉTICA DESCRITIVA
O escritor que cunhou “Cidade Azul” como
referência para Tubarão tinha profunda conexão com a vida no mar e no litoral.
O livro que escreveu sobre Florianópolis,
“Santa Catarina: A
Ilha” (1900), tornou-se um clássico, revelando seu simbolismo e naturalismo
sulista.
É muito forte nele o jeito de descrever
paisagens, lugares, ambientes... Tais características já estavam presentes no
seu “Traços Azuis” (patrocinado por
seu mestre Gama Rosa).
Isso explica o seu verso sobre Tubarão,
que recordo novamente: “O rio passa, serpenteando, e no
seu rastro de prata, banha a Cidade Azul”. A poética descritiva deste verso é notória e
encantadora. Foi assim ao descrever a vida em Florianópolis e a paisagem de
Joinville (quando a visitou pela primeira vez), absorvendo os elementos da
cultura açoriana litorânea.
Particularmente, gosto da comparação que alguém fez
sobre nosso amigo Virgílio, explicando que ele dá-nos a impressão de que é um ‘pintor
de quadros’, tamanha sua capacidade de descrever uma paisagem; às vezes, mais
do que a narração. É um ‘descritivista’!
Ao brincar com um caleidoscópio, encanta-me a
variedade das cores. Há algumas daquele espectro que me chamam mais a atenção
do que outras; o azul é uma delas. Sim, gosto do azul! Então, alguém pode
imaginar a profusão de sentimentos que passou pelo meu coração quando pude
visitar o Santuário salesiano de Dom Bosco, em Brasília, com aqueles
deslumbrantes vitrais azuis, fixados em 80 colunas de dezesseis metros, obra do
artista belga Hubert Van Doorne! Uma maravilha azul!
Gosto do céu azul... mas também quando está pintado
por pequenas nuvens brancas ou douradas! Aliás, eu era ainda um ‘projeto de
Deus’ quando, em 1961, o primeiro homem lançado ao espaço sideral, o cosmonauta
soviético Yuri Alexeievitch Gagarin, exclamou: “a Terra é azul!”. Mais tarde, descobrimos que Netuno e Urano,
igualmente, possuem coloração azulada.
Eu também gosto do manto azul de tantas imagens de
Nossa Senhora, como a da Piedade (Pietá), padroeira de Tubarão. Na iconografia
cristã, a cor azul representa humanidade, santidade, divino, céu,
transcendência e fidelidade. Não é uma cor litúrgica, mas é bem utilizada nas
celebrações marianas.
Foi até hilária a iniciativa da Prefeitura de
Tietê, a cidade paulista que é cortada pelo grande rio que leva seu nome, em
2019, quando decidiram pintar trechos de ruas e calçadas na cor azul ciano
visando a diminuição da temperatura do asfalto e redução da sensação térmica da
cidade.
Tal notícia logo me traz à mente um fato de nossa
cidade. Lembro que, lá na década de 1980, divulgou-se uma notícia de que a
Prefeitura de Tubarão disponibilizaria tinta azul (ou daria um tentador desconto
para quem a adquirisse) para ser usada na pintura de casas e estabelecimentos
comerciais na cidade. Sendo verdade, talvez fosse interessante caso desse
certo.
Mas, tudo bem. Eu sei que naqueles dias de março de
1974, especificamente o fatídico dia 24, não havia nada de poesia. O Tubarão
transbordou, revelando-se Feroz (como alude seu nome tupi-guarani). Por vários dias
o céu não foi azul e, para nós, tampouco importava a cor de suas águas. Passados
quase 52 anos daquela tragédia, quando chove, diferentemente de Virgílio, com o
coração apertado, continuamos a olhar para o céu e para o rio... para o rio e
para o céu.
Como reza o antigo ditado “depois da tempestade [e da inundação], vem a bonança”, passado o susto, o sol voltou a brilhar esplendoroso e o Tubarão vai seguindo seu rumo, esbanjando beleza e vigor, contido e perdoado (perdoador!) pelas resistentes e resilientes margens ciliares.
CIDADE AZUL... SEMPRE
Neste seu 163º aniversário natalício, bem no dia
seis de janeiro, Festa dos Santos Reis (Baltazar, Gaspar e Melchior), registramos
a nossa gratidão e reconhecimento ao grande catarinense Virgílio Várzea, que
deixou uma marca especial na história de nossa cidade. Tubarão é multicor,
assim como a sua gente, que é constituída por descendentes de várias etnias e
mesclas possíveis. E isso é o mais importante!
Bela homenagem já foi feita pela saudosa professora
Walkyria Búrigo de Carvalho que colocou na letra do Hino de Tubarão a pérola de
Virgílio: “Abençoada, Cidade Azul!
Idolatrada, Cruzeiro do Sul! O teu futuro será feliz, rincão sublime do meu
país”. E é interessante registrar que a poesia começou a ser escrita em
1936 e a oficialização do Hino ocorreu apenas em 2004.
Realmente, caro Virgílio Várzea, não há como não se encantar diante de uma paisagem que nos permite contemplar, ao mesmo tempo, o rio Pai Feroz (Tuba-Nharõ) e o céu azul, ambos obras do mesmo Pai Amoroso... Pai Amor... Amor que não tem cor.
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Trailer
do filme ALBERTINA: https://www.youtube.com/watch?v=3XggsrQMHbk
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