HOMILIA DO PE. RAIMUNDO GHIZONI NAS PRIMÍCIAS DO NOVO SACERDOT

(29/07/2026) Lembro bem daquela manhã de domingo, 30 de julho de 1995 (aliás, como poderia esquecer-me de algo com o que sonhei e busquei a vida inteira?!). Chovia muito. A comunidade católica do bairro Passagem, em Tubarão, levantou-se cedo para logo dirigir-se à capela de Santa Terezinha do Menino Jesus e encontrar um bom lugar para participar da Santa Missa.

Seria as primícias do neo-sacerdote Pe. Auricélio Costa, o primeiro filho da terra a ser ordenado presbítero. Ainda me soava muito estranho o cognome ‘Padre’. Mas, na tarde do dia anterior, lá na Catedral, durante a Missa em que fui ordenado, D. Hilário Moser/SDB afirmou: “A partir de agora, o teu nome é Padre Auricélio!”.

Passagem em festa! Minha família em festa! Meu coração e minha alma também festejavam! Cá dentro de mim ecoava o meu lema presbiteral: “O Senhor é meu Pastor; nada me faltará!” (Salmo 23/22).

Chovia e a Banda Musical da Polícia Militar, que iria levar-me festivamente de minha casa até a igreja, não pode fazê-lo; mas, tudo bem! Diante de nossa residência, de dentro do ônibus, a corporação tocou uma peça e fiquei muito feliz.

A capela ficou tomada de fiéis. Havia um clima de contentamento: a comunidade oferecera um filho seu para o serviço do altar! E o filho estava feliz!

Familiares e amigos foram chegando para a Missa. Padres, freiras e seminaristas também. Queriam ficar comigo, acompanhar-me e ver-me presidir a Primeira Missa ‘sozinho’, as tais primícias. Pe. José Eduardo (que era Diácono) ajudou-me com o Missal.

Eu somente queria agradecer... Eram muitas emoções... Lá do presbitério, cada rosto que eu distinguia na assembleia, despertava em mim inúmeras lembranças e sentimentos... Queria chorar (e chorei), queria cantar (e cantei)... entreguei-me junto com o Santo Sacrifício.

Para proferir o Sermão da Primeira Missa, como costume, em meio a tantos, convidei um padre significativo em minha caminhada: o Pe. Raimundo Ghizoni. Ele era amigo de nossa família e, durante quase toda a caminhada de minha vida, ele foi o meu Pároco. Moramos juntos durante o ano de 1988 e deixei que ele se aproximasse do meu coração.

A seguir compartilho um tesouro que conservo dentro de mim: a homilia de minhas primícias. É a transcrição dos seus apontamentos, escritos de próprio punho e conservado em meio aos seus pertences. Após o seu ‘nascimento para o Céu’, ocorrido em 06 de novembro de 2023, aos 98 anos, aqui em Tubarão, através da Anilza Martins, nossa amiga comum, herdei os textos manuscritos originais.

(Saudação. Ecos da Ordenação.)

1. Ainda ressoam em nossos ouvidos aquelas melodias suaves, os cantos abrilhantados pelo conjunto musical dos seminaristas e jovens, o entusiasmo do povo, as palmas que estrugiram na Catedral quando você, Auricélio, foi consagrado Presbítero do Senhor.

 Ainda ‘vemos ao vivo’ aquele sorriso alegre dos colegas, aquela vibração dos parentes, aquele abraço de seus pais, dos seus irmãos, aquela emoção feliz, quando você, Auricélio, foi ungido, quando o Bispo e os padres lhe impuseram as mãos e você recebeu a Ordenação Sacerdotal.

Padre Auricélio, você venceu a batalha! Hoje sobe os degraus do altar para presidir a oração da Missa, oferecer aos irmãos o Pão da Palavra, o alimento da Eucaristia, a mensagem da Salvação. Você é um vencedor! Ouviu o chamado de Deus, percebeu as pancadas em seu coração e partiu para a missão. “Não fostes vós que me escolhestes; Eu vos escolhi para que vades e produzais frutos” (João 15,16).

2. A vocação é um dom de Deus! Um presente original para o uso do bem comum. Não para si, mas para os outros. Missão especial em favor da comunidade e da Igreja. O chamado é de Deus; a resposta é do escolhido.

3. Quando Auricélio foi chamado, a família soube de sua decisão. A comunidade se alegrou e o ajudou com seu apoio e sua oração. A Igreja encaminhou seus passos através da Paróquia, abrindo as portas do Seminário. E Deus continuou dando seu incremento.4. Mas as lutas não foram poucas... O coração é amarrado aos bens da vida, é amarrado às alegrias do mundo, aos apegos das pessoas amigas, da casa e da família.

O coração não se desprende com facilidade. “Ele tem razões que a própria razão não sabe.” O coração não tem pressa de dizer Sim quando o que escolhe, aparentemente, parece uma perda.

De novo, as palavras de Jesus são claras: “Quem perder a sua vida por amor de mim, salva-la-á...” (Mt 16,25). E foi o que aconteceu com o jovem Auricélio.

5. Deus lhe falava e o chamava, como chamou a Samuel. Deus insistia e teimava: “Auricélio! Auricélio, vem e segue-me!...”. Mas a resposta não vinha... Havia outras vozes que soavam também aos seus ouvidos, como uma atraente melodia.

Porém, essas encantadoras vozes, aos poucos foram desaparecendo e... Soou mais forte a voz de Deus! Seu chamado fez-se realidade. Voltou para o Seminário. Recebeu o apoio de sua família e de sua comunidade. Todos rezavam.

Mas ainda, nem tudo estava tão claro. Foi difícil uma resposta definitiva. Sua vida estudantil, preparatória para o sacerdote, foi entrecortada de idas e voltas, de partidas e chegadas, de retornos e tentativas de novas experiências.

Deus, porém, continuava chamando, cada vez mais alto e cada vez mais claro: “Auricélio! Auricélio, vem e segue-me!...”.

Deus falava de diversas maneiras, por diferentes pessoas, em exóticos lugares. Assim é que você, Auricélio, e seu colega (José) Eduardo foram parar na África, fazendo a experiência missionária que faltava em sua formação universitária, pastoral, teológica e sacerdotal.

Lá, no meio de um povo 'estranho', diferente, sedento de Deus e curioso das coisas sobrenaturais, carente de tudo, você percebeu a fineza da escolha de Cristo: “Não fostes vós que me escolhestes, mas foi Eu que vos escolhi, para que vades e produzais frutos, e frutos em abundância!” (João 15,16). 

Você, Pe. Auricélio, é um escolhido de Deus para evangelizar, para celebrar o culto e a vida do povo de Deus na Igreja de Cristo! 

6. O padre é um ser privilegiado, que Deus reenvia para o meio do povo, de onde ele veio. Ele vai distribuir os dons sobrenaturais: pregar a Palavra, indicar os caminhos, denunciar os erros, realizar o culto, dirigir o rebanho, organizar a comunidade. 

Para exercer esta missão tão importante e tão grandiosa, o padre deverá estar sempre em comunhão com Deus e com os seus irmãos, conhecer o Evangelho, conhecer o seu povo e ouvir o seu clamor. 

7. Ele vai se tornando útil na medida em que atinge as pessoas, exercendo seu ministério. O padre não é apenas um homem que tem funções sacerdotais. Ele todo, inteiro, sempre, dia e noite, é o Apóstolo – o Pastor.

É o homem da Palavra, do Culto, da Caridade. Veio para servir o povo de Deus, alimentar a sua fé, fortificar a sua esperança, ajudar os cristãos a se organizarem, fazer da Igreja uma comunidade fraterna de amor e de vida, semear a felicidade.

Sua missão, enquanto participa do sacerdócio de Cristo, é a mesma que Jesus possuía: “como o Pai me enviou, Eu vos envio!” (João 20,21).

Missão de libertar o povo das correntes do mal, da escravidão do pecado e reconduzi-lo salvo à Casa do Pai. 

8. Você, Padre Auricélio, tem esta missão; um grande campo de apostolado em sua frente. “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância” (João 10,10). Grande é a messe! O trigal está maduro. As espigas de trigo estão caindo no chão. É preciso que haja novos braços e novos obreiros. Confia no Senhor: inesgotáveis são as graças que Deus tem para lhe dar! 

Confia na maternal proteção de Nossa Senhora da Piedade. Ela é Mãe, conhece as necessidades de seus filhos.

Confie na oração desta comunidade que tanto lhe ama e tanto espera de você.

Confie na graça de seu sacerdócio, na vitalidade do Sacramento da Ordem, na amizade e no apoio de seus colegas, irmãos, parentes, amigos e pais.

O caminho está aberto, a plantação está madura, o povo está à sua espera! Deus o abençoe!... Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém! 

Em 30 de abril de 2025, tendo por ‘madrinha literária’ a Prof.ª Dr.ª Marilene da Rosa Lapolli, fui integrado aos escritores da Academia Tubaronense de Letras (ACATUL), honrosamente ocupando a Cadeira nº 22 que fora ocupada pelo saudoso escritor Pe. Raimundo Ghizoni. E escolhi para meu patrono o memorável poeta Pe. Claudino Biff, que me batizou e que era amigo do Pe. Raimundo.

A vida vai passando e o Céu vai providenciando encontros e circunstâncias que nos aproximam e nos unem: nós, ainda na terra, e aqueles outros que já estão na Glória.



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História de Albertina – narração: Pe. Auricélio e seus pais Sebastião e Osmarina – https://www.youtube.com/watch?v=D18M67Tpunc          

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