"DERRAMADORES DAS GRAÇAS"- D. ADILSON PRESIDE MISSA DO CRISMA NA CATEDRAL DE TUBARÃO

(01/04/2026) Um dos momentos mais profundamente eclesiais ocorre quando leigos e clérigos reúnem-se em torno do altar e celebram a Eucaristia. Isso acontece, podemos dizer, a cada domingo, nas igrejas do mundo inteiro. A Santa Missa torna-se um memorial da Última Ceia, momento de revelações e afetos, momento de fala e escuta, momento de partilha da fé e da vida.

Na Semana Santa, a Missa do Crisma parece tornar tudo isso plasticamente muito visível e espiritualmente mais acessível. Foi essa a experiência que, presumo, puderam ter os participantes da Missa do Crisma na Catedral Nossa Senhora da Piedade, em Tubarão.

Presidindo a celebração estava o Bispo, D. Adilson Pedro Busin/CS, auxiliado por Padres e Diáconos, além de acólitos e demais membros da Equipe de Liturgia. Em torno do presbitério, colocaram-se os demais presbíteros e Diáconos da Igreja Particular, consagrados e consagradas, e grande número de leigos e leigas; muitos deles lideranças em suas comunidades eclesiais e representantes de variados segmentos pastorais.

Em ocasiões assim, antes e depois das funções, percebe-se como as pessoas gostam dos seus padres, apreciam cumprimentá-los, ter um dedinho de prosa... e, por outro lado, também os eclesiásticos gostam de se encontrar, de rever amigos e paroquianos de outros tempos e outras missões... Ao cumprimentar o Senhor Bispo, cada ordenado sempre tem uma ou duas palavrinhas para trocar com ele. De minha parte, fiz questão de mostrar-lhe a estola que escolhi para a celebração: a que usei na minha Primeira Missa, lá em 1995, presente da Paróquia da Catedral, minha Paróquia-mãe.

Na Liturgia da Palavra, D. Adilson parecia sereno e leu sua homilia, fazendo algumas pontuações. Apresentou ensinamentos a ser apreendidos do itinerário quaresmal presente na Liturgia da Palavra de cada Domingo, especificamente dos Evangelhos propostos. A linha condutora foi o mistério do Batismo que conduz para o Tríduo Pascal, fazendo de todo cristão alguém comprometido com o ágape fraterno, que se traduz em servir: um “derramador das Graças”.

Eis a reflexão proposta pelo Bispo. 

Convite para caminhar à conversão.

Celebrando hoje a Missa do Crisma e trazendo ao coração a Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio, quero fazer com vocês um caminho que já percorremos na Quaresma, o caminho do Senhor que nos chama à conversão. A Liturgia nos convidava a caminharmos na estrada estreita da conversão, na oração e na esmola. Trata-se de um chamado de conversão quaresmal, ainda mais para nós aqui no Brasil, com um olhar atento e solidário à questão da moradia, dignidade que falta a tantos de nossos irmãos.

Cada domingo trouxe um aspecto do Batismo que nós fizemos até chegar à grande Vigília do Batismo, no Sábado da Páscoa.

Investidas do Inimigo.

No 1º Domingo da Quaresma, Jesus vencia as tentações pela oração e pelo jejum. Se até Jesus sofreu tentações do inimigo, que dirá nós, pecadores! Não estamos imunes às fragilidades e somos suscetíveis aos pecados. É com Jesus, Mestre e Senhor, que aprendemos a vencer as tentações. Padres e Diáconos, é pela via da oração e da penitência que Jesus está a nos chamar, pois elas nos educam e nos formam. Sem elas não há apostolado fecundo.

Unidos ao Transfigurado.

No 2º Domingo celebramos a Transfiguração. Jesus manifesta a Sua glória. Se a cruz causava escândalo para alguns discípulos, Jesus transfigurado mostra a sua glória e confirma a vocação dos discípulos. Em meio às nossas dificuldades, se estamos com Jesus, à nós também, como seus servos, Ele nos mostra seu esplendor e a beleza de nossa vocação e de nossa unção, e a glória de sermos purificados pela sua presença. Como Pedro, podemos dizer: ‘Senhor é bom estarmos aqui’. ‘Estar e permanecer com Ele’: eis o lugar de todos os sacerdotes!

Água Viva da Fonte do Amor.

Seguindo o caminho ao encontro com o Mistério, no 3º Domingo da Quaresma Jesus se apresenta à samaritana como Água Viva. E foi pela água que nós nascemos pelo Batismo. No ministério sacerdotal, o Batismo é uma das características do serviço ministerial. Para cada Padre e Diácono, Jesus é também a Fonte de Água Viva! Ele é o centro de nossa existência e ressignifica continuamente a nossa vida e o nosso ser. ‘Ele sabe tudo’ de nossa vida, como disse a samaritana. E preenche a nossa humanidade, assim como é; e sacia a sede do verdadeiro sentido da vida. É Água que jorra para a vida eterna!

Enxergar além.

A luz. É outra simbologia do Batismo, que foi tema do 4º Domingo da Quaresma na figura do cego curado da enfermidade e prostrado diante de Jesus. Após a pergunta do Mestre, o homem diz: ‘Eu creio, Senhor!’. Crer em Cristo como ‘Luz do mundo’ é um chamado a todo batizado e, por conseguinte, e sobretudo, ao ministro ordenado, que dá testemunho do Senhor, pois que encontrou um caminho. E diz ao cego: ‘Sou Eu, aquele que fala contigo’. O Evangelho de hoje também nos lembrou ‘o Espírito do Senhor está sobre mim’... sobre nós.

A pergunta crucial.

Chegamos ao 5º Domingo da Quaresma, com Marta, Maria e Lázaro. E a Liturgia nos coloca diante da Morte e da Vida. Ser batizado é encontrar Jesus como ressurreição: ‘Eu sou a ressurreição e a vida, quem crer em mim mesmo que morra, viverá’. Este é o mistério que se apresenta aos amigos de Jesus. E a pergunta é: ‘Tu crês nisto?’.

Na noite da Páscoa, na Vigília de Sábado, o cristão confessa essa fé. Esse é o mistério para onde se dirige todo o caminho da nossa Quaresma, o mistério passado no qual os cristãos eram e são os novos filhos e filhas de Deus.

Emergidos para a plena Luz.

Para chegar à Páscoa é preciso, também passar pelo Domingo da Paixão e entrar na Semana Santa. Diante do Servo Sofredor, o Filho de Deus condenado à morte, odiado e descartado, haverá quem confesse que ‘Ele era mesmo o Filho de Deus’?

Aquela pergunta que Jesus fizera à Marta e ao cego é a pergunta que perpassa todo o caminho da Quaresma, para nos levarmos à direção do Tríduo Pascal, e sairmos dali emergidos à luz da Ressureição.

Imaginemos a alegria no coração dos catecúmenos que, depois de um caminho de peregrinação ao longo da Quaresma, chegam a esse momento (às vezes esperado por anos). Nesta Vigília Pascal de 2026, milhares de catecúmenos serão batizados na Igreja ao redor do mundo, como na Austrália, França, Vietnã, Inglaterra... serão acolhidos na Noite Santa. Em muitos países, cada vez mais, adultos têm buscado a Graça do Batismo. Louvado seja Deus por isso! Aqui na nossa Catedral teremos essa graça também! Será a ‘noite das noites’! É onde culminam os passos que demos à conversão quaresmal que iniciamos lá na Quarta-feira de Cinzas. Abraçar a fé é viver em Cristo e abraçar a sua Santa Igreja.

Guardiões do ‘memorial’.

A esta altura, alguém poderá perguntar, qual a mensagem que eu, Bispo, gostaria de transmitir ao Padres e Diáconos. Irmãos, a riqueza espiritual desta celebração está no âmbito da cruz e missão. Todo sacerdote é chamado a fazer o caminho de conversão a Cristo, como qualquer cristão. Jesus pergunta igualmente a todos nós: ‘Crês nisto?’. E nós estamos neste caminho de conversão para fazermos a experiência como discípulos e encontrá-Lo na Santa Ceia, no ágape fraterno e sacerdotal. Tomando o pão, Ele disse: ‘Isto é meu corpo’; tomando o vinho, Ele disse: ‘Isto é meu sangue’. E perpetuem essa memória.

À quem o Senhor confiou tudo isso? À Igreja, pelo ministério sacerdotal. És tu, querido padre, que fazes parte dos que ouviram dos Apóstolos o mandato: ‘fazei isso em minha memória’. A ‘memória’ é da Igreja e permanece no teu serviço presbiteral. É como se Jesus, nesta noite, olhasse para ti e te dissesse: ‘agora, tudo aquilo que nós fizemos na Quaresma, está em tuas mãos. É tua missão, é teu serviço. Tens nas mãos essa grande e preciosa dádiva divina’.

Mas, e as nossas fragilidades, a nossa humanidade; aqueles momentos mais exigentes da missão? Vai. O Senhor te chamou e será para ti a Fonte de Água Viva. Nas trevas ou dias nebulosos, Ele quer ser a tua Luz. Na solidão, no cansaço, quando a vida te parecer pesada, Ele te dirá: ‘Eu sou a Ressurreição e Vida’!

Fortalecidos pela Unção.

A unção de que nos fala o Evangelho é alento para nossa pobreza também, para nos libertar e nos consolar. ‘O Espírito do Senhor está sobre mim me enviou’. Ele veio ao nosso encontro. A Boa Nova de Jesus é para nós, em primeira pessoa, antes de a levarmos aos irmãos.

O amor-doação passa pelo serviço humilde da fraternidade presbiteral ou diaconal. Aprender a abaixar-se para lavar os pés dos irmãos, na escuta paciente e atenciosa que fazemos no confessionário, com pessoas de todas as idades, aquelas que pedem a graça do Sacramento do Amor de Deus. ‘O Espírito me ungiu e me enviou’ para uma grande missão.

Derramadores das graças de Deus.

O óleo que será abençoado e consagrado, depois, será levado para os Sacramentos em missão, fazendo de nós, também pequenos derramadores das graças de Deus. É a Igreja que vai ungindo e tu és portador de tais bênçãos. Seja essa a dignificação do teu ser sacerdotal. Leva o óleo aos fiéis como um bálsamo, um perfume suave aos que participam da missão e da obra de Salvação de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ele te convida a estar com Ele e com o Pai, na oração, numa experiência profunda do amor-doação, que é o que define a missão do cristão, seja Padre ou Diácono ou Bispo. É a intimidade com o Pai. Vive, pois, caro irmão e caro filho, intensamente a tua missão. Ao te dedicares no ajudar os fiéis a bem viverem a Semana Santa, vive, tu também, em primeiro lugar, o mistério do amor do Senhor. E Ele também te convidará a fazeres companhia a Ele, com Pedro, Tiago e João.

O serviço como entrega.

No pão e no vinho, ofertas humanas se tornam Corpo e Sangue do Senhor. Tu, sacerdote, recebeste da Igreja o ministério de alimentar e saciar. Nada identifica mais o padre do que a Santa Missa, o sacrifício perene do Cordeiro. Seja sempre este o momento ápice da comunidade, a ti confiado. Não hesites em abaixar-te para servir. Somos servos do mistério de Cristo; ou seja, nosso ministério está a serviço daquele mistério, que consiste em abaixar-Se e fazer-Se tudo igual a nós, ‘exceto no pecado’.

‘Ele veio morar entre nós’ para nos mostrar o caminho da Casa do Pai. E quem crer n’Ele, viverá eternamente. Boas celebrações! Santa e feliz Páscoa!

Concluída a reflexão, D. Adilson abençoou os Santos Óleos da Unção dos Enfermos e do Batismo e consagrou o Santo Óleo da Crisma.

Antes da bênção final, o Bispo acolheu e apresentou à comunidade o sacerdote missionário angolano Pe. Fernando Hossi, da Diocese de Benguela, que será Auxiliador Paroquial em Capivari, onde permanecerá pelos próximos anos.

O Coro Pontifical permaneceu cantando enquanto o clero e os fiéis se cumprimentavam com votos de Santa Páscoa.


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