Deus nos visitou
sobremaneira nestes tempos. Ele quis se revelar a nós através de olhinhos azuis
brilhantes e sorrisos sinceros e palavras amigas pronunciadas com uma voz
suave, segura e com encantador sotaque alemão.
Era Ele mesmo quem nos via
com aquele olhar penetrante e atento. Cada um que se aproximou dela, foi observado
profundamente com amor e ternura. Sua presença alegre irradiava aquela alegria
própria dos que têm intimidade com o Senhor.
E ela sabia muito bem,
que pela sua presença entre as pessoas, também estava evangelizando. E, às
vezes, nos dava a impressão de que estávamos diante de uma senhora menina ou de
uma jovem senhora, tão entusiasmada era pela vida, pela missão, pela Igreja,
pelo Reino... e por Cristo.
“Queria
muito ter mais saúde para continuar minha missão junto aos pobres da Área
Verde; mas, já não posso mais. Então, os acompanho daqui de casa e com as
minhas orações!”, disse-me certa vez.
E, de fato, ela se
dedicou admiravelmente àquelas pessoas mais carentes de nossa cidade. Lá na
Área Verde, batizada de Jardim Floresta, uma espécie de assentamento espontâneo
de famílias vindas dos recantos mais recônditos deste país, onde a miséria, a
drogadição e a violência vêm morar; lá onde, às vezes, nem o poder policial
conseguia adentrar.
Mas, para a Ir.
Joahanna, nenhum ‘olheiro’ e nenhum traficante impedia a passagem. Sabiam que
dela só vinha coisa boa, só vinha ajuda e caridade, só vinha amor. Remédios e
alimentos, acompanhados de palavras de ânimo e testemunho cristão, eram bem
vindos. Até não-católicos lhe abriam as portas de suas casinhas.
Foi catequista de
muitos adultos daquela região, bem como de outros bairros, preparando-os para
os mais diversos Sacramentos. O que desejava, na verdade, é que eles se
sentissem amados por Jesus e pela Igreja e se tornassem pessoas melhores. “Dói-me na alma que eles não venham para a
Igreja, mas não posso parar de evangelizar!”, confidenciava, algumas vezes
com seus olhos marejados e com o rosto enrubescido pela emoção.
Certa vez a encontrei
na Secretaria Paroquial da Paróquia Santa Terezinha, na Passagem, em Tubarão. Veio
comprar alguns Catecismos para Adultos e me abordou: “Padre, já conhece este novo Catecismo? Ah, vou dar de presente para
meus catequizandos”. Então, percebendo que eu estava carregando a Carta Encíclica
Laudato Sì, do Papa Francisco, observou: “Ah,
que Documento maravilhoso! Que coisa linda!” Sim, Ir. Johanna era muito estudiosa e atenta aos apontamentos do Magistério!
Quantas vezes, ao cumprimentá-la
antes das celebrações, eu percebia o quanto ela estava concentrada interiormente
e ávida pela liturgia eucarística. Atenta a tudo, a cada rito e cada palavra,
meneava a cabeça concordando e acolhendo as afirmações do pregador durante a
homilia. E, ao final das Missas, sempre ela tinha a delicadeza de se aproximar
de mim e, fitando-me os olhos, sorrindo, dizia: “obrigado pela Missa, pela catequese, pela música”.
Ninguém nunca duvidou
que ela era uma santa entre nós. Não obstante a sua partilha de conhecimentos
através das aulas e palestras que ministrava em várias instituições e
organismos eclesiais, ela enriquecia a todos também com seu silêncio, com sua
oração e com sua capacidade de ouvir.
Mulher consagrada, filha
espiritual do Pe. Guilherme Meyer, encarnou o carisma de seu Instituto Coração
de Jesus: “Caminhar, consciente e
comunitariamente, na Presença de Deus e anunciá-la ao mundo, sobretudo às
famílias e às comunidades paroquiais, como fundamento da espiritualidade e
impulso para a missão”.
Inspirada nos
ensinamentos do Fundador, Ir. Johanna buscou “Caminhar na Presença de Deus” seguindo
os ‘sete caminhos’ que o Pe. Meyer
apresentou: os caminhos comunitário do amor, da paz, da cruz, da conversão,
solitário, do apostolado e da alegria.
Desde de 1922, quando
foi fundado o Instituto em Germete, na cidade de Warburg, na Alemanha, trilhando
estes caminhos, as pioneiras Irmãs chegaram ao Brasil em 1938 e, em Braço do
Norte no ano de 1949.
Ir. Johanna amou sua família
religiosa, participando ativamente das alegrias e das dores da sua jornada,
enfrentando os desafios com esperança e confiança no Coração de Jesus, seu
Divino Esposo. Ali assumiu várias funções administrativas e formativas,
incentivando os Círculos de Amigos.
Este amor esponsal a
alimentava e a impulsionava mais e mais para a vida de santidade em nossos
tempos. Nela reconhecemos muitos dos atributos de Jesus ou, em outras palavras: nela
vimos Jesus agindo!
Capaz de sair de si,
vivendo sua vocação missionária, deixando sua amada Alemanha, depois de ter
cuidado dos pais como filha única. “Minha
família de sangue é pequenina assim. Papai e mamãe só tiveram a mim de filho.
Então, sinto-me adotada pelo Brasil”, testemunhou.
Acolheu uma nova
cultura e se deixou envolver por ela, sem nunca esquecer suas raízes culturais.
Humilde, estava sempre disposta a servir, mesmo tendo que ‘disfarçar’
desconfortos de saúde. E, diante de situações embaraçosas, sabia silenciar e
dar uma orientação segura.
Olhava as pessoas com
um olhar de Jesus, por isso sabia ‘olhar’ com amor. E não lhe custava abrir sua
carteira para ajudar tantos carentes que chamavam por ela, no portão de sua
Fraternidade, em qualquer horário do dia ou da noite. Ela sabia também quando
era preciso lhes dar um ‘puxão de orelhas’.
Seu amor à Nossa
Senhora era frutuoso em sua vida pessoal e missionária. Com legítimo coração de
mulher consagrada, como Maria, desenvolveu um jeito de ser irmã entre os irmãos
e mãe de tantos filhos e filhas. Diretora Espiritual da Legião de Maria, a
recitação das contas do rosário era uma de suas devoções.
Mas, hoje, a notícia de
sua morte nos deixa tristes e pesarosos. O céu nublado, após tantos dias de sol
intenso, nos dá a impressão de que também a natureza nos convida a um
recolhimento respeitoso e celebrativo.
Não há como apenas
lamentar o passamento de Ir. Johanna, porque a sua passagem entre nós foi tão
enriquecedora! Há que agradecer também!
Que a COVID-19 tenha
lhe apressado o agravamento de suas condições físicas, justamente no dia em que
o Brasil registra mais de 250.000 óbitos pela doença, é significativo que
possamos louvar a Deus pelo dom de sua vida e de sua santidade.
Ainda iremos ouvir falar muito sobre ela e
conhecer muitos outros aspectos da sua vida! As queridas e dedicadas Irmãs do
Instituto, vivendo o luto e a gratidão a Deus, no limiar do seu Jubileu do
primeiro Centenário de Fundação, no próximo ano, saberão guardar a memória
desta filha dileta do Pe. Meyer.
Certamente, a nossa
Diocese não deixará o testemunho de Ir. Johanna guardado em algum livro de
história. Igualmente, o povo de Deus da Paróquia da Passagem, evidentemente,
saberá honrar o nome desta ‘santa’ que ali viveu e muito amou.
Fomos visitados por
Deus! E na infinda Misericórdia de seu Coração, nos visitou na pessoa da querida e amada Ir.
Johanna Newmann. Louvado seja! E seja amado em toda parte!
(revisto em 26/02/2022)
1ª foto: meus pais Sebastião e Osmarina com Ir. Johanna. Missa de 27/12/2020. Passagem.
2ª foto: Irmãs Johanna, Irene, Rosa e Mírian (esquerda para a direita), na Casa Paroquial de Vargem do Cedro, 30/01/2018.


6 Comentários
Obrigado pelas palavras e testemunho. A conheci nas missas hospital Nossa Senhora da Conceição. Irma Johanna, sempre sorrindo, sempre tão cheia de amor, de bondade e doçura. Tive a alegria de tela conhecido, hoje minhas orações pela sua vida e missão. Certamente o céu está em festa, sendo acolhida nos braços do Senhor e contemplando sua face. " Bem aventurados os outros de coração, porque eles verão a Deus" !!
ResponderExcluir*Puros de coração
ResponderExcluirDescanse na paz de Deus ,Ir. Johanna , vc deixa muita saudades para todos nós
ResponderExcluirConfirmo todas as reflexões feitas acima são veraz. Uma mulher vibrante que transbordava a alegria da Santidade. Obrigada por tudo Irmã Johanna. Descanse em paz.
ExcluirEu estive com Ela, me chamo muito atenção não se preocupava da sua saúde, da sua provincial e o pessoal de saúde, e quando vejo a cuidadora fez a sinal da cruz, ela diz obrigada, descsnse na paz dê Deus que nossa senhora sempre estejam a seu lado.
ResponderExcluirSempre sorrindo com aquele sotaque maravilhoso ela dizia: Coisa mais linda essas crianças!
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